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Blogs - Marcelo Alonso

10 exemplos que vão te ajudar a pontuar melhor as lutas de MMA

Na última quarta-feira, toda a equipe do Canal Combate (narradores, comentaristas e equipe técnica) e Combate.com (jornalistas) teve uma senhora aula sobre as novas diretrizes das regras do MMA com os profissionais da CABMMA, Guilherme Bravo (juiz) e Osiris Maia (árbitro e juiz).

Foram quase seis horas de imersão onde pudemos tirar dúvidas em cima de vídeos de lutas polêmicas e nos atualizar sobre critérios de avaliação de pontuação e regras que tem sido atualizadas quase todos os anos pela ABC, entidade que regulamenta as quase 70 Comissões Atléticas, que regulam não só o UFC, mas os principais eventos de MMA do mundo.

Veja também: O maior desafio de Conor McGregor | "Copo meio cheio" do Brasil no UFC em 2019

O papo foi tão esclarecedor, que acredito que não seria justo restringir este conteúdo somente aos 11 presentes na reunião, por isso decidi compartilhar com os fãs do esporte aqui no blog os assuntos mais relevantes. Como seria praticamente impossível abordar todas as dúvidas e polêmicas debatidas nestas seis horas de "seminário", trago para vocês os exemplos de rounds que mais me ajudaram a entender as novas diretrizes do nosso esporte.

Eryk Anders x Khalil Rountree (2º round): 10x7

Um dos primeiros exemplos abordados para nos mostrar como o esporte tem evoluído no sentido de aumentar o “fracionamento das pontuações”, foi o 2º round da luta entre os americanos Eryk Anders e Khalil Rountree (UFC 236). Aplicando vários low kicks no oponente, Khalil conseguiu quatro knockdowns. Mesmo sendo todos eles de menor intensidade (grau 1) e Anders terminando o round de “cara limpa” e em nenhum momento fazendo menção de desistir, Khalil conseguiu claramente o chamado triplo D (Domínio, Dano e Duração) a ponto de o árbitro chegar próximo de interromper o combate, para decretar o nocaute técnico.

Foram abordados ainda outros casos mais claros de 10x7, que antigamente eram pontuados como 10x8, como Glover Teixeira x Fabio Maldonado e Priscila Pedrita x Valentina Shevchenko. Ambos onde o domínio foi ainda mais avassalador e o dano bem maior do que nesta luta entre Anders e Rountree. Também revimos o 3º round de Leo Jason e Felipe Oliveira no Shooto Brasil 95, outro exemplo claro de 10x7.

Como um dos diferenciais entre 10x8 e 10x7 é a possibilidade de interrupção do combate pelo árbitro, Osíris Maia nos falou sobre a importância da leitura corporal do lutador: “O atleta precisa apresentar lucidez, vontade e condição técnica. Caso não ‘tenha’ um destes três critérios, a luta tem que ser interrompida imediatamente”.

Como exemplos claros de 10x8, Bravo trouxe o 3º round da luta entre Renan Barão e Dougla D`Silva no UFC São Paulo, o 3º round entre Vicente Luque e Stephen Thompson no UFC 244 e o 2º round da luta entre Demian Maia e Gunnar Nelson no UFC 194.

Francis Ngannou x Derrick Lewis (2º round): é possível pontuar 10x10?

Além do maior fracionamento da pontuação também arguimos Bravo e Osiris sobre a possibilidade de o juiz aplicar 10x10 em rounds muito parelhos. Ambos deixaram claro que as diretrizes da ABC são sempre no sentido de evitar ao máximo esta pontuação, pois “o juiz sempre deve ser capaz de ver algo que faça a diferença. Seja um golpe mais duro ou mais leve, um volume maior ou menor de técnica eficaz. Mas o árbitro do UFC, que há alguns meses lançou o livro "Nas Mãos dos Juízes", fez questão de nos mostrar um round básico usado em cursos para demonstrar o entendimento de uma pontuação 10x10, a luta entre Melvin Manhoef e Rafael Carvalho. Em seguida assistimos o 2º round entre Adriano Martins e Léo Santos e Francis Ngannou x Derrick Lewis. Dois exemplos onde a raríssima pontuação 10x10, poderia ser aceita.

Para nos ajudar a entender “ações que façam diferença”, Bravo trouxe ainda exemplos de rounds, quase sem ação, que acabaram sendo definidos por um golpe mais duro, ou volume maior de ataque por parte de um dos lutadores ou uma penalização do juiz, que tirou um ponto de um dos lutadores, como na luta entre José Maria “Sem Chance” e Maycon Sylvan no ACB 82 em 2018.

José Aldo x Renato Moicano (1º round): volume x contundência

E foi abordando rounds muito parelhos que surgiu a primeira polêmica da reunião. Para começar a falar da importância do dano (impacto) nos julgamentos e exemplificar um round 10x9 de difícil definição, Bravo e Osiris distribuíram papeletas, iguais as que eles usam nos eventos, para os 11 presentes na reunião, exibindo na sequência o primeiro round da luta entre Aldo e Moicano, para que pontuássemos. O brasiliense teve claramente mais volume (aplicou cinco jabs e um forte low kick), mas Aldo aplicou os dois golpes mais contundentes do round (um cruzado e um low kick). Este foi um dos exemplos mais polêmicos onde nosso grupo ficou dividido (seis deram 10x9 para o Aldo e cinco para Moicano), mas que foi muito importante para conseguirmos ver que a contundência (ou impacto) de um golpe é muito avaliada pelo juiz a beira do Octógono. Mesmo com menos golpes aplicados, na opinião da maioria, Aldo teria virado este round (antes de nocautear Moicano aos 44 segundos do 2º round).

Anderson x Bisping (3º round): a importância de dosar a contundência

Um outro exemplo interessante que revimos avaliando a importância das novas diretrizes de pontuação, principalmente levando em conta o critério “dano”, foi a polêmica luta entre Anderson Silva e Michael Bisping realizada no UFC Londres em 2016.

Assim como no dia da transmissão, meu colega Luciano Andrade deixou clara sua posição, compartilhada por quase todos da mesa, que o árbitro Herb Dean errou ao não interromper a luta ao final do 3º round, quando Anderson aplicou um nocaute no inglês praticamente no momento em que a buzina soou. Mas como o intuito da reunião não era discutir possíveis erros de arbitragem, até porque não seria ético para os membros da CABMMA, Bravo preferiu focar conosco na questão do dano. Como sabemos, nesta luta, graças a decisão de Herb Dean, Anderson teve que voltar para lutar o 4º e 5º rounds e acabou saindo derrotado por um triplo 48x47 nas papeletas. Vale frisar que este resultado só ocorreu pelo fato de o brasileiro ter vencido este 3º round por apenas 10x9.  Pontuação injusta se levarmos em conta que o golpe aplicado foi um nocaute, ou seja, já que a luta não foi interrompida ele deveria ser ao menos avaliado como um knockdown grau 5, o que, mesmo em 2016, garantiria ao brasileiro um 10x8. Se esta pontuação tivesse sido atribuída, a luta terminaria empatada.

Mas vale notar que se a luta fosse hoje, provavelmente o 10x7 fosse aplicado neste 3º round, o que garantiria a vitória ao brasileiro, mudando os rumos da história da divisão. Afinal, Bisping certamente não teria tido a chance mais importante da sua carreira quatro meses mais tarde, quando venceu Rockhold e faturou o cinturão dos médios. Este exemplo foi excelente para mostrar a importância de uma pontuação mais elástica para o desenvolvimento do esporte.

Weidman x Gastelum (2º round): grappling efetivo x striking efetivo

Um outro assunto abordado foi o critério de “pontuação”. Ou seja o peso que o juiz deve dar ao impacto (dano) de cada golpe, que muitas vezes podem definir uma virada de round. E quando se avalia impacto ou dano, obviamente os critérios grappling e striking efetivo têm pesos iguais. Por isso foi muito interessante revermos o 1º round entre Weidman e Gastelum. O round começa disputado em pé até que Weidman consegue derrubar e passa a dominar inteiramente as ações no solo, a ponto de encaixar uma americana justíssima no oponente. Mas, faltando pouco mais de 40 segundos para o fim do round, Gastelum consegue escapar e, nos 15 segundos finais do round, aplica um knockdown (grau 1) em Weidman, que ataca um single leg enquanto Kelvin continua a puni-lo. Mais um exemplo que trouxe polêmica e dividiu o nosso grupo.  Bravo explicou que em casos como este o juiz precisa ter seus critérios para “valorar” a contundência das técnicas. Existem vários métodos neste sentido (como sistema de moedas, régua ou da fita métrica). No final, a maioria concordou com um 10x9 para Weidman levando em conta que a kimura encaixada e um domínio claro no solo por mais da metade do round, merecia uma “pontuação maior” que o knockdown grau 1 de Gastelum nos últimos segundos. Mas não foi uma decisão unânime.

Anthony Pettis x Tony Ferguson (1º round): dano x knockdown

Um outro exemplo extremamente elucidativo da maneira como os juízes muitas vezes valorizam o dano é o 1º round da luta entre Pettis e Ferguson (UFC 229). Pettis começa o round em clara vantagem aplicando dois knockdowns no “El Cucuy”. Mas vale frisar aqui que ambos são de grau 1 (Tony cai para frente e levanta imediatamente). Pettis ainda consegue derrubar, cai por cima na guarda, mas passa a não aplicar golpes muito contundentes. Até aí o round está claríssimo para Pettis, mas eis que Ferguson levanta e aplica uma cotovelada de encontro que abre um enorme corte na testa do oponente. Faltando pouco mais de dois minutos para o fim do round o ex-campeão, visivelmente abalado pelo sangramento, passa a adotar uma postura inteiramente defensiva, enquanto Tony busca o nocaute de forma incessante, chegando perto de terminar a luta em duas oportunidades, até o gongo soar. Neste caso, o dano e a clara mudança de postura de Pettis determinaram a virada clara de Ferguson. Caberia um 10x9 ou até um 10x8, tamanho o domínio e dano causados por Ferguson no fim do round.

Amy Montenegro x Celina Haga (3º round): 10x6 seria possível?

Um outro exemplo muito interessante trazido por Bravo ocorreu no Invicta 21, em 2017. A lutadora Amy Montenegro vinha ganhando claramente os dois primeiros rounds, mas acabou sendo finalizada no final do terceiro por Amy Montenegro, chegando a perder a consciência. Neste caso, Osiris explicou que o árbitro deveria ter terminado o combate decretando a finalização técnica e a vitória de Amy Montenegro, mas isso não ocorreu, então a luta foi para as papeletas e Haga acabou vencendo por 29x28. Em casos como este, onde o juiz percebe que o árbitro errou, Bravo sugeriu em seu livro que os juízes pudessem passar a usar o 10x6, como uma maneira de corrigir o erro cometido pelo árbitro. Bravo deixou claro que, por enquanto, esta ainda não é uma diretriz adotada pela ABC, mas a sugestão já foi dada.

Talvez o 10x6 ainda demore a ser aplicado, mas o fato é que o esporte caminha no sentido de acatar um maior fracionamento. Cabe agora aos juízes das quase 70 Comissões Atléticas passarem a aplicar as novas diretrizes definidas nos últimos dois anos pela ABC, como tem sido feito pelas principais Comissões Atléticas (Brasil, Califórnia e Nevada). Esta revolução na postura conservadora que marcou o esporte em seus primeiros 20 anos, quando praticamente replicamos a ditadura do 10x9 do boxe, é essencial para que fãs e jornalistas incorporem a nova realidade do esporte.

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