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Blogs - Marcelo Alonso

Caminhos da vitória para os 10 brasileiros no UFC Uruguai

Depois de Brasil, Chile e Argentina, agora é a vez do Uruguai receber o UFC em sua capital, Montevidéu, no próximo sábado (10). Como o MMA ainda não tem tradição no país, caberá aos brasileiros parte importante da missão de apresentar o esporte mais emocionante do mundo aos locais. Além de o evento ser regulado pela Comissão Atlética Brasileira (CABMMA) e organizado, em parte, pela equipe do escritório brasileiro do UFC, 11 dos 23 lutadores do card nasceram no Brasil (até o único representante uruguaio no card nasceu aqui). 

A luta principal do evento será uma das três deste card sem representantes nacionais. Mesmo assim foi estrategicamente escolhida porque a campeã peso-mosca Valentina Shevchenko, nascida no Quirguistão, passou nove anos de sua vida no Peru e, por isso, fala fluentemente espanhol.

Depois do impressionante nocaute sobre Jessica Eye em junho, Shevchenko fará sua segunda defesa, contra Liz Carmouche, a única mulher em suas 20 lutas de MMA que conseguiu vencê-la por nocaute técnico. Nove anos se passaram desde aquele primeiro encontro e, obviamente, hoje a história é outra. Valentina entra com um favoritismo de quase 90%, com o qual concordo plenamente. Carmouche teria que fazer uma luta perfeita derrubando a campeã nos 5 rounds e impondo seu ground and pound para conseguir a vitória. Em condições normais de temperatura e pressão, a quirguiz deve conseguir bloquear as quedas da americana, obrigando-a a se expor em seu ponto fraco, a luta em pé.

E vale lembrar que, mesmo que caia por baixo, Valentina tem chances de surpreender, como fez em 2017 ao aplicar um armlock da guarda numa das melhores grapplers da divisão, Julianna Peña. Minha aposta é que a luta não chegará ao 4º round. Não há como questionar que Shevchenko, hoje, é muito superior a todas as meninas de sua divisão. Devolvendo a derrota para Carmouche, só vejo duas possibilidades de desafios interessantes para ela: super lutas contra as brasileiras campeãs, Jessica Andrade (palha) e Amanda Nunes (galo e pena).

Welterweight Vicente Luque and Mike Perry face off during the Ultimate Media Day
August 8, 2019

PURA NITROGLICERINA

Na luta co-principal, o brasileiro Vicente Luque e o americano Mike Perry devem fazer uma daquelas batalhas antológicas, que tem tudo para ganhar algum bônus. Apesar de estar num momento melhor, vindo de uma sequência de cinco vitórias, Luque, hoje 15º do ranking dos meio-médios, sabe que Perry é um lutador perigosíssimo, que não foge a trocação e tem muito poder de nocaute. A grande questão para ele aqui será conter seu instinto assassino e não deixar Mike chegar na loteria do infight. Se conseguir controlar a distância, trabalhando da média para a longa, o brasileiro é muito mais técnico e tem mais chances de vencer. 

Mas obviamente o cenário ideal para Luque seria levar o oponente ao solo, onde “Platinum” se transforma num ser absolutamente indefeso e totalmente vulnerável ao vasto arsenal de katagatames e triângulos de mão do faixa marrom de jiu-jítsu.  Apesar de Perry não estar ranqueado, uma vitória convincente do brasileiro no Uruguai deve finalmente levá-lo a galgar desafios maiores na divisão, que tem seu parceiro de treinos Kamaru Usman como campeão. 

Pentacampeão mundial de jiu-jítsu, Rodolfo Vieira está de casa nova. Neste sábado (10), o astro da arte suave faz sua estreia no Octógono do Ultimate, enfrentando Oskar Piechota pelo peso-médio no UFC Uruguai. Veja como está a expectativa do carioca para essa nova etapa de sua já vitoriosa carreira.


A ESTREIA DE RODOLFO VIEIRA

Com boa parte da velha guarda dos grandes campeões mundiais do jiu-jítsu no MMA chegando aos 40 e se aproximando do fim da carreira (Ronaldo Jacaré, Fabrício Werdum, Demian Maia e Léo Santos), a Arte Suave ganhará um senhor reforço da nova geração em sua tropa de elite neste sábado. Depois de cinco finalizações no MMA, o pentacampeão mundial de Jiu-Jitsu Rodolfo Vieira finalmente foi contratado para lutar entre os médios no maior evento do mundo. Treinando com Ronaldo Jacaré e Jorge Patino Macaco na Fusion X-Cell, na Flórida, Rodolfo terá na estreia um ótimo teste, o polonês Oskar Piechota.

Com 13 lutas de MMA, sendo 11 vitórias (5 por nocaute e 5 por finalização), o polonês tem indiscutível poder de nocaute, mas traz muitas brechas em suas defesas de quedas. E apesar de ser faixa-preta do campeão do ADCC Robert Drysdale, Oskar costuma perder muitas posições no solo, tanto que foi finalizado (mata-leão) por Gerald Meerschaert em sua última luta.

O wrestling será o fiel da balança para Rodolfo nesta luta. Aliás, não só nesta, mas para o futuro de sua promissora carreira. Se conseguir aproveitar o fato de morar nos Estados Unidos para desenvolver um jogo de quedas, adaptando técnicas de wrestling e judô ao seu jiu-jítsu, Rodolfo tem tudo para fazer entre os médios o que Demian Maia fez na divisão de baixo. Para esta estreia, minha aposta é uma vitória do brasileiro por finalização no 2º round. 

DURINHO ENTRE OS MEIO-MÉDIOS

E por falar em estreia de um grande campeão do jiu-jítsu, depois de passar muitos perrengues para bater o limite da divisão dos leves, Gilbert Durinho Burns decidiu escutar sua esposa e seu médico. E, após uma sequência de oito vitórias em 11 lutas, resolveu fazer sua estreia na divisão dos meio-médios pegando de cara uma pedreira que ninguém queria, o russo Alexey Kunchenko. Invicto com 20 vitórias (sendo 13 por nocaute), o ex-campeão do M-1 venceu na decisão as duas lutas que fez no UFC, contra veteranos que, inclusive, já lutaram pelo cinturão: Thiago Alves (contra GSP) e Yushin Okami (contra Anderson Silva). 

Mas como disse em entrevista aos colegas do combate.com esta semana, o ex-campeão mundial de BJJ tem motivos para chegar confiante nesta estreia, afinal de contas, foi um dos principais sparrings do ex-campeão Robbie Lawler para a luta com Colby Covington. E Lawler não é a única referência do faixa-preta na Hard Knocks 365. O atual campeão, Kamaru Usman, e o 15º da divisão, seu grande amigo e parceiro mais constante, Vicente Luque, também treinam com ele diariamente.

No papel, o casamento não favorece ao brasileiro. Além do conhecido poder de nocaute, o russo tem excelente defesa de quedas. E a maior prova disso é que o judoca Yushin Okami, um peso-médio natural, não conseguiu derrubá-lo em nenhuma oportunidade nos três rounds da luta realizada em dezembro último.

A grande questão para o brasileiro será equilibrar as ações e ouvir seu treinador Henri Hooft, mesclando tentativas de queda com muito footwork para não permitir que o russo o encurrale. Se repetir os erros que cometeu contra Dan Hooker, quando partiu em busca do nocaute, desguarnecendo seu “sistema defensivo”, Durinho pode ser surpreendido. Mas caso consiga fazer uma luta tática e cerebral, tem grandes chances de usar seu altíssimo nível no grappling para complicar a vida do oponente. 

Polyana Viana também lutará na divisão de cima neste UFC Uruguai. Após três lutas na divisão dos palhas (uma vitória e duas derrotas), a paraense decidiu aceitar um convite de última hora para enfrentar a venezuelana Verônica Macedo na divisão dos moscas. Depois de finalizar Maia Stevenson na estreia, Polyana engatou uma sequência de duas derrotas (para JJ Aldrich e Hannah Cyfers). Em ambas a brasileira mostrou brechas no sistema defensivo, que foram definitivas na decisão dos juízes, mas que segundo seu treinador, Philip Lima, não ocorrerão no sábado. “A Verônica chuta muito, trabalhamos muito para a Poly entrar nas brechas destes chutes. Ela está muito bem para este combate e vai voltar a vencer”, me garantiu o treinador. 

Com três lutas e três derrotas no UFC, a venezuelana faixa-preta de taekwondo é extremamente agressiva em pé, mas tem duas enormes brechas no seu jogo que casam bem para a brasileira: as defesas de queda e o nível baixíssimo na luta agarrada. Se conseguir derrubar, Polyana tem grandes chances de finalizar.

BRASIL CONTRA BRASIL

Depois de Deiveson Figueiredo (#3) e Alexandre Pantoja (#4) roubarem a cena fazendo a luta da noite no UFC 240, é a vez de outros dois representantes nacionais na divisão dos moscas tentarem roubar o show, só que agora no Uruguai. E pelo estilo destas duas revelações do Contender Series Brasil eu diria que as “chances de bônus” são altíssimas. Faixa-preta de Gile Ribeiro, Bontorin estreou com o pé direito no maior evento do mundo vencendo o favoritíssimo Magomed Bibulatov num clássico Brasil x Rússia realizado no UFC Fortaleza.  “Ele está supermotivado pra esta luta com o Raulian, fez um camp intenso, afiou muito a trocação com o Filé para esta luta. Estamos confiantes na vitória para onde a luta for”, aposta Gile Ribeiro.

Já Raulian, que depois de surpreender o favorito Allan Puro Osso no Contender, acabou sendo superado pelo neozelandês Kai Kara France em decisão dividida na estreia, não perdeu tempo, aproveitando um convite de Urijah Faber para se internar por cinco meses na Alpha Male, onde melhorou muito seu ponto fraco, a defesa de quedas. “Ele foi o principal sparring do Faber neste camp de retorno. Treinou muito. O Faber gostou tanto dele que alugou uma casa pra ele ficar nestes quase cinco meses aqui na Califórnia. A defesa de queda dele está no ponto, mas se a luta for para o chão ele é faixa-marrom e tem um jiu-jítsu excelente. Não vai me surpreender se conseguir finalizar”, disse Fabio Pateta, treinador de jiu-jítsu da Alpha Male.

Se conseguir usar seus 7cm de vantagem na envergadura para controlar a distância mantendo a luta em pé, Raulian terá mais chances de vencer. Mas vale frisar que a tarefa não será fácil para o lutador do Amapá. Como mostrou contra o perigosíssimo Bibulatov, Bontorin usa muito bem sua velocidade para alternar tentativas de quedas com perigosos combos, além de trabalhar muito bem no scramble (berimbolo) para chegar às costas. Não por acaso oito de suas 11 finalizações são via mata-leão. Confronto bastante parelho, mas por ter um jogo mais completo, acredito que Rogério Bontorin consiga uma vitória na decisão.

A brasileira Marina Rodriguez busca a sua segunda vitória na organização frente a norte-americana Tecia Torres no #UFCUruguay, neste sábado (10). #UFC

Brasil

Outra revelação do Contender Series Brasil presente neste card será Marina Rodriguez. Depois de empatar com a experiente Randa Markos na estreia e vencer Jessica Aguilar na segunda luta, a gaúcha invicta terá pela frente o mais duro desafio de sua carreira. Oitava do ranking dos palhas, a pequena Tecia Torres vem de uma sequência de três derrotas em lutas muito disputadas contra tops do ranking: a campeã, Jéssica Bate Estaca (Tecia ainda venceu o 1º round), a atual desafiante Weili Zhang (6º) e a ex-campeã Joanna Jedrzejczyk (4º).

Se conseguir usar seus 12 cm de vantagem na envergadura para controlar a distância e evitar as quedas de Tecia ou aplicar joelhadas do clinche, como fez a polonesa Joanna, a brasileira tem ótimas chances de vencer, mas o mais provável é que a experiência, explosão e o bom wrestling da “Tiny Tornado” façam a diferença e a americana consiga voltar a ter seu braço levantado, mesmo que em decisão apertada. 

INVESTINDO NO MMA FRANCÊS

Um dos confrontos mais aguardados da noite colocará dois pesos-pesados invictos estreando no UFC. De um lado o kickboxer francês, ex- parceiro de treinos de Francis Ngannou, Ciryl Gane (1,96m / 120kg); do outro, o brasileiro faixa-marrom de jiu-jítsu Raphael Bebezão Pessoa (1,93m / 113kg), que há 4 meses vem treinando com André Dida na Evolução Thai. Após três nocautes impressionantes no MMA, sendo o último sobre o mineiro Roggers Souza, Gane vem sendo apontado por especialistas europeus como o maior talento entre pesados fora do UFC. Apesar de ter seis vitórias por nocaute em seu cartel invicto de nove lutas no MMA, o fato é que Bebezão ainda não enfrentou um “pesado natural” com as credenciais do francês.

A diferença de nível em pé entre os dois é muito grande. As chances do brasileiro estão em conseguir derrubar o kickboxer e testá-lo no solo, mas, pelo que puder ver nas lutas de ambos que encontrei no Youtube, a tarefa não será nada fácil. Favoritismo claro do francês, que pode vir a ser um investimento do UFC em direção ao novo mercado de se abrirá em 2020, quando eventos de MMA voltarão a ser permitidos na França. 

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VOLTA POR CIMA

Outros dois brasileiros, vindo de boas atuações na estreia, completam a seleção brasuca neste UFC Uruguai: Geraldo Freitas e Alex Leko. Leko mostrou muita personalidade na estreia no peso leve e vinha vencendo bem a luta contra o experiente russo Alexander Yakovlev até cansar e ser surpreendido por uma guilhotina. Sábado, o atleta da Astra enfrentará uma das grandes revelações do MMA mexicano, Rodrigo Kazula, que tem 10 vitórias em 12 lutas. Além de poder de nocaute, Kazula tem uma boa defesa de quedas e vem motivado por um nocaute em 28 segundos sobre o ex-lutador do UFC Mike de La Torre. Kazula é parceiro de treinos de Rafael dos Anjos e gosta muito da trocação, mas pegará um oponente com características similares, só que com o dobro de nocautes. Minha aposta é na volta por cima do lutador de Santa Catarina por nocaute.

Depois de vencer Felipe Colares na estreia, pela divisão dos penas, Geraldo Freitas terá a chance de lutar em sua divisão (galo) contra o americano Chris Gutierrez em um clássico grappler x striker. Ex-campeão do Shooto, o faixa-preta de jiu-jítsu da Nova União tem um bom double leg e um nível no solo bem superior ao oponente. A grande questão aqui será telegrafar menos as quedas e usar mais as fintas, como fez Raoni Barcelos, que finalizou Chris em sua estreia no UFC. Mas como mostrou em sua segunda luta, quando venceu Ryan McDonald, o americano tem um excelente kickboxing e um bom wrestling defensivo. Se conseguir frustrar as quedas do brasileiro, mantendo o combate em pé, o americano tem mais chances de vitória.

URUGUAIO E BRASILEIRO

Curiosamente o 11º brasileiro neste card irá representar o Uruguai. Filho de pai brasileiro e mãe uruguaia, Luiz Eduardo Garagorri nasceu na cidade de Santana de Livramento na fronteira com o Uruguai, mas por conta da mãe passou a ter dupla cidadania. “É muito comum ter dupla nacionalidade aqui. Sou uruguaio, sou gaúcho, torço pelo Grêmio”, disse Eduardo ao colega jornalista Marcelo Barone do Combate.com. E foi lutando em eventos brasileiros e uruguaios que Garragori conseguiu construir um belo currículo. Fez 12 lutas de MMA tendo vencido todas (6 por finalização e 4 por nocaute).

Em sua estreia no UFC, o uruguaio terá pela frente o peruano Humberto Bandenay que vem de duas derrotas consecutivas no evento, mas estreou em 2017 com um impressionante nocaute em 26 segundos sobre o mexicano Martin Bravo. 

Como ambos são strikers que buscam o nocaute incessantemente, a luta tem grandes chances de terminar antes do 3º round.

O UFC Uruguai será transmitido pelo Canal Combate a partir de 18hs de sábado. Estarei comentando as seis lutas do card preliminar ao lado de Rhoodes Lima e, a partir de 21h, Luciano Andrade, Carlão Barreto e André Azevedo assumem o card principal. Até lá.