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Blog do Marcelo Alonso

Cerrone x McGregor: redenção milionária

Depois de um mês de folga, o UFC está de volta abrindo seu calendário de 2020 com uma raríssima edição numerada sem cinturões em jogo, mas que traz na luta principal a volta da maior estrela da companhia, Conor McGregor, ex-campeão dos penas e dos leves.

Quinze meses após perder em disputa de cinturão para Khabib Nurmagomedov, o irlandês volta ao Octógono fazendo um clássico com Donald Cerrone, um dos maiores recordistas da história do esporte. O evento contará ainda com a participação de dois brasileiros no card principal: Claudia Gadelha (enfrentando Alexa Grasso) e Diego Ferreira (lutando contra o ex-campeão dos leves Anthony Pettis na luta co-principal).

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De um lado, um dos maiores ídolos da história do MMA norte-americano, recordista de nocautes e bônus, com 50 lutas de MMA e vindo de duas derrotas por nocaute técnico; do outro, o maior recordistas de pay per views da história do UFC, primeiro homem a conquistar dois cinturões simultaneamente e também vindo de derrota.

Definitivamente, no atual momento de suas carreiras, Donald Cerrone e Conor McGregor encarnam com propriedade a narrativa que mais fascina os fãs seja nos ringues, Octógonos ou no cinema: a redenção do campeão. Não por acaso, mesmo sem valer título, a luta principal deste UFC 246 tem gerado tanto interesse.

A julgar pelas bolsas de apostas, o irlandês sai na frente com pouco mais de 70% das preferências. Algo natural tendo em vista o fato de Cerrone estar vindo de duas derrotas por nocaute técnico (contra Tony Ferguson e Justin Gaethje). Aqui, vale ressaltar um fato importante: Cerrone e Conor se enfrentarão na divisão de cima (77 Kg), ou seja, o norte-americano não passará pelo desgastante processo de perda de peso, que claramente afeta sua capacidade de absorver golpes. Vale lembrar também que o Cowboy tem um nível muito superior a McGregor tanto no wrestling, quanto no jogo de solo.

Ele mostrou um timing excelente para derrubar wrestlers como Rick Story, bem como strikers agressivos como Alex Cowboy e Edson Barboza. Uma vez no solo, Cerrone distribui muito bem o peso por cima dificultando que o oponente volte em pé. E quando cai por baixo, tem uma guarda extremamente agressiva capaz de finalizar com triângulos e armlocks.

Na trocação, Cerrone também tem um arsenal mais variado alternando socos e chutes, sempre com vistas a conduzir o oponente para sua principal arma, sua canelada mortal de direita. O Cowboy, inclusive é recordista de nocautes com chutes na cabeça na história do UFC (são 7).

No quesito atividade, o lutador norte-americano também sai na frente. Desde dezembro de 2016, McGregor só lutou uma vez (com Khabib), enquanto Cerrone subiu ao Octógono em 11 oportunidades (cinco vitórias e seis derrotas).

Mas afinal, se Cerrone leva vantagem por ser um meio-médio natural, pela experiência (tem 50 lutas, exatamente o dobro de Conor) e versatilidade, então qual a razão de tamanho favoritismo do irlandês nas bolsas de apostas?      

As razões são várias, mas talvez a principal seja o momento de cada lutador. Aos 36 anos de idade e com 50 lutas de MMA, Cerrone levou seu corpo ao limite nos últimos 14 anos e obviamente toda esta dedicação cobra um preço. Hoje, além de ter perdido velocidade e reflexos, o Cowboy teve uma clara redução em sua capacidade de absorção de golpes. E isso ficou patente em suas duas últimas lutas contra Ferguson e Gaethje.

Cerrone também é conhecido por ter problemas contra canhotos que o pressionem e o encurralem na grade. Principalmente aqueles que aplicam golpes na linha de cintura (como Rafael dos Anjos). Algo que McGregor faz com maestria.

Uma outra característica que favorece o irlandês é o fato de Cerrone ser um slow starter. Ou seja, enquanto McGregor costuma ter um primeiro round avassalador (13 de suas 21 vitórias foram no 1º round), Cerrone cresce no decorrer da luta.

Posto isso, minha aposta é num nocaute do irlandês até o 2º round, mas caso Cerrone consiga usar sua experiência para sobreviver à tempestade inicial, terá grandes chances de mudar os rumos da luta, seja com um chute na cabeça ou usando seu ótimo timing para derrubar McGregor. Como quando está cansado, Conor costuma dar as costas para escapar do solo, as chances de Cerrone conseguir um mata-leão, como Nate Diaz no UFC 196 ou Khabib no UFC 229, são reais. Obviamente, se conseguir sobreviver ao conhecido início avassalador do gênio McGregor.

130 milhões de dólares em duas lutas?

Em longa entrevista concedida ao jornalista Ariel Helwani na última sexta-feira, Conor revelou que espera faturar em torno de 80 milhões de dólares nesta luta com Cerrone. Disse ainda que contra Khabib teria embolsado 50 milhões.

Se estes números forem verdadeiros, o irlandês entrará pra história do esporte batendo mais um recorde. Depois de ser o primeiro lutador a ter dois cinturões simultaneamente, passará a ser também o primeiro campeão a romper a barreira dos 100 milhões de dólares duas vezes. No papel, Conor já teria rompido esta barreira ao lutar com Floyd Mayweather (segundo maior pay per view da história, atrás apenas de Mayweather x Pacquiao). Mas esta luta foi nas regras do boxe.

Estes números, aliás, representam muito mais que uma quebra de recorde, demonstram para as novas gerações que, num esporte movido a pay per view, nem sempre ser dono do cinturão significa ser o mais bem pago. Assim como ser trash talker não significa vender pay per view, que o digam Colby Covington e GSP.

Brasil

O fato é que, se conseguir comprovar no Octógono seu favoritismo, vencendo Cerrone no sábado, McGregor certamente catapultará o MMA a um novo patamar em sua próxima luta, seja com Jorge Masvidal ou uma revanche com Nurmagomedov. Caso perca, continuará gerando interesse dos fãs e certamente continuará rompendo novas barreiras e reescrevendo novos capítulos na história do esporte.

Diego Ferreira x Anthony Pettis

O esquadrão brasileiro abre o calendário de 2020 com dois representantes. Um no masculino (Diego Ferreira) e outro no feminino (Claudia Gadelha).

Vindo de uma impressionante seqüência de cinco vitórias, finalmente o amazonense Diego Ferreira terá pela frente um desafio que pode levá-lo a conquistar um lugar entre os 15 melhores do ranking mais disputado do UFC. Ferreira abrirá o card principal enfrentando o ex-campeão dos leves Anthony Pettis. Pettis volta a sua divisão de origem após nocautear Stephen Thompson e perder na decisão para Nate Diaz conquistando o 9º lugar no ranking dos meio-médios.

O brasileiro entra como favorito, principalmente após conseguir duas importantes vitórias em 2019 sobre as pedreiras russas Rustam Khabilov e Mairbek Taisumov. Ambos vinham de sequências de seis vitórias e foram freados pelo brasileiro.  

Inicialmente considerado um típico faixa-preta de jiu-jítsu unidimensional, Diego desenvolveu um kickboxing agressivo desde que passou a treinar com Sayif Saud na Fortis MMA. Sempre andando para frente com um volume de golpes impressionante, o brasileiro tem surpreendido seus oponentes. Este, aliás, é exatamente o jogo que costuma complicar Pettis.

Se conseguir controlar a distância usando a movimentação lateral para impor seu conhecido talento em pé, “Showtime” pode surpreender, mas, por tudo que tem mostrado em suas últimas lutas, o brasileiro entra como favorito.

Gadelha no caminho de volta ao Top 5

Ex-desafiante ao cinturão e atual 6ª colocada da divisão dos palhas, Claudia Gadelha vem de vitória sobre Randa Markos em sua única luta em 2019. Neste sábado, a potiguar terá pela frente a mexicana Alexa Grasso (#11), que tem três vitórias e três derrotas na organização e vem de derrota para Carla Esparza, uma luta cujo resultado mais justo seria o empate, uma vez que Esparza conseguiu impor suas quedas nos dois primeiros rounds, abrindo 20 x 18, mas foi totalmente dominada pela mexicana no último, num claríssimo 10 x 8 no 3º round.

Com um jogo marcado por ótimas quedas e excelentes transições no solo, a faixa-preta de jiu-jítsu tem tudo para neutralizar a principal arma da mexicana (o boxe) e vencer por finalização, assim como fez Tatiana Suarez. Mas a margem para erros é pequena, uma vez que Grasso tem evoluído muito sua defesa de quedas, usando cada vez melhor sua envergadura para manter a luta em pé. Caso perca posições, Gadelha correrá o risco de cansar e ser surpreendida, assim como Esparza. Mas pelo casamento de estilos, minha aposta é numa vitória da brasileira, que se aproximaria da elite da divisão mais disputada do MMA feminino na atualidade, voltando a sonhar com uma disputa de cinturão.       

Este evento terá ainda dois excelentes combates femininos. Na divisão dos galos, a ex-campeã Holly Holm (#3) concederá a revanche a Raquel Pennington (#5). Quando as duas se enfrentaram há cinco anos, Pennington foi derrotada em decisão dividida e polêmica, para muitos. Na divisão dos moscas, a nova queridinha do UFC, Maycee Barber (#9), de apenas 21 anos (invicta com 8 vitórias), enfrenta a veteraníssima Roxanne Modafferi (#7), de 37 anos, que entrará no sábado para fazer sua 40ª luta de MMA como maior zebra da noite. Até terça feira, 87% dos apostadores acreditavam na vitória da novata, que já tem três vitórias por nocaute técnico em pouco mais de um ano de UFC.

Evento imperdível, que será transmitido pelo Canal Combate no próximo sábado (18) a partir das 19h45 (horário de Brasília). Vale acompanhar ainda a coletiva de imprensa (quarta-feira, 22h no Sportv 3 e Combate.com) e pesagem (sexta-feira 19h50 no Sportv 3 e Combate.com).