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Lifestyle

Como manter a sanidade mental em épocas de coronavírus?

Psicóloga e doutora em psicanálise, Andrea Ladislau explica como não pirar com o excesso de informações – nem com a quarentena – nesses tempos loucos que vivemos

Nesta semana, um artigo que a psicóloga e doutora em psicanálise Andrea Ladislau divulgou para a imprensa chamou a atenção. Chamado “O Caos Mental Ocasionado pelo Excesso de Notícias Sobre o Coronavírus”, ele trata dos potenciais efeitos que as notícias da disseminação da Covid-19 provocam em nossa sanidade mental.

“A doença do coronavírus trouxe muito pânico e medo”, escreve ela. “Por isso, além de estarmos atentos aos aspectos físicos e biológicos relacionados a essa doença, cabe também fazermos uma análise minuciosa de outros pontos relevantes voltados para a saúde mental e emocional das pessoas.”

Segundo ela, o excesso de notícias e informações tem nos levado a um descontrole e uma insegurança “sem igual”. “Com o advento tecnológico, a propagação das chamadas Fake News (notícias falsas) trouxe um grande impacto viral e, através de chamadas sensacionalistas, tendem a prender o público e acabam, assim, por desestabilizar emocionalmente quem consome essas notícias”, afirma.

Como a cada minuto aparece uma notícia nova, nosso medo e desespero também cresce. “Com isso é natural a presença de transtornos de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade generalizada, pânico e outros sintomas decorrentes”, explica a especialista.

Resolvemos procurar a psicóloga para que ela nos ajude a não panicar nesse momento tão delicado. Veja os principais trechos da entrevista:

De que forma sermos bombardeados por informações do coronavírus nos afeta e colabora para o agravamento de doenças mentais e de ataques de pânico?

O momento é muito delicado. Estamos recebendo muitas informações sobre o coronavírus e algumas dessas informações são desencontradas. Como as próprias autoridades de saúde ainda possuem muitas dúvidas sobre o contágio e cuidados, por ser um novo vírus, natural que as orientações sejam dinâmicas e possam ser alteradas de um dia para o outro, necessitando serem atualizadas com frequência.

E é por causa deste cenário de alarde e confusão além da medida que devemos estar mais atentos, pois a insegurança dos fatos vai gerar, sim, ansiedade. Se o indivíduo já apresentava sintomas de doenças mentais, mais um motivo de termos cautela e cuidar para que não sejam agravados. A ansiedade, o medo, angústia e a incerteza de como ficaremos no futuro, ou nos próximos dias, traz a instabilidade emocional que pode levar até a um transtorno de pânico.

Nossa mente é muito poderosa e a realidade que se apresenta é aprender a trabalhar com o imaginário das pessoas, além de saber lidar com a doença. Portanto, o agravamento se dá pela angústia, pela ansiedade reativa, o desespero descontrolado, as fantasias do que pode acontecer.

or outro lado, quanto mais informação para a população, melhor. Como resolver essa dicotomia?

Sim. Quanto mais informação melhor, mas que sejam informações assertivas. Não pode é ficar feito louco buscando todo tipo de informação, espalhar e compartilhar notícias sem ter certeza se são verdadeiras, pois pode gerar mais pânico e aumentar o desespero das pessoas. O mais importante nesse momento é seguir as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde). Buscar informações de fontes verdadeiramente confiáveis. Não propagar o alarde das situações. A população deve respeitar a solicitação de isolamento domiciliar para que a curva de ascendência da doença diminua e para que se possa conseguir cuidar dos pacientes testados positivamente, de forma a não ocorrer mais transmissões.

A senhora diz em seu artigo que, em situações como essas, podemos reagir com impulsividade e até cometermos suicídio. Porque reagimos assim?

Quando nossa mente/inconsciente é levada ao seu limite de estresse, de medo e sem o mínimo suporte emocional, aliado a um bombardeio de informações que não são filtradas e de fontes pouco confiáveis dentro de uma pandemia, a tendência é que nossa reação seja de tirar a dor que estamos sentindo. A dor interna que machuca e não vemos possibilidades de solução. E que pode se agravar se tivermos dentro de nossa família casos confirmados e com óbitos concretos.

Em casos em que a pessoa já tenha outros problemas associados, certamente pode vir a entrar em um ciclo de pressão psicológica tão intensa que não suporte a “dor” e decida por arrancá-la do peito cometendo suicídio. Por isso é muito importante serenidade no momento, ajuda profissional, fazer atividades que deslocam sua ansiedade e atenção para que o foco passe a ser a saúde mental e do corpo, e não mais os problemas evidentes.

Como, de forma prática, podemos evitar ataques de ansiedade que algumas pessoas já relatam?

Isso é pressão psicológica mental pelo excesso de acontecimentos relacionados a uma pandemia. O mais sensato a se fazer é filtrar o que lê, filtrar o que recebe. Todos estão envolvidos nessa atmosfera e não tem como ser diferente, mas cada um pode fazer sua parte, tentando não se impressionar com tudo o que vê ou lê. Focar apenas em informações dos órgãos oficiais. Cuidar de si e de quem está próximo, seguindo as orientações. Conselhos de grupos, amigos e pessoas não esclarecidas, muitas vezes, geram os boatos, fake news e propagam mais tumulto dentro da desordem que já estamos vendo.

Importante lembrar da velha máxima “quem conta um conto aumenta um ponto”. Se passarem uma informação errada e, principalmente, dados numéricos errados, a tendência é que os números estatísticos sejam sempre maiores que os reais, pois tudo o que choca chama a atenção e viraliza. E quem recebe as informações pode, sim, ficar ansioso e entrar em crise de ansiedade, porque o cérebro entra em colapso de medo e pânico. O melhor a fazer, portanto, é filtrar o que recebe. Ter responsabilidade e sensatez, não descuidando da segurança e não descuidando também de sua sanidade mental. Tentar manter o equilíbrio sem entrar em desespero. Não fique muito tempo conectado nas redes sociais. Quanto mais ansiedade e medo, mas irá aumentar a sensação de pânico.

E quem foi diagnosticado? Há alguma forma de reduzir o impacto de possíveis reações como tédio, inconformismo, solidão?

Quem foi diagnosticado já está tomado pelo medo e insegurança de ter contraído a doença. É muito importante minimizar as sensações de desconforto e a pressão psicológica que o caso pode gerar. Sendo assim, deve-se, enquanto se cuida e passa pelo período da quarentena, tentar ocupar a mente com outras questões mais prazerosas para que não entre em depressão, não fique entediado e agressivo.

O isolamento traz uma limitação natural: a solidão. O ideal é buscar atividades únicas como, leituras (nada que seja ligado a tragédias ou situações de tristeza), fazer exercícios em casa para manter o corpo ativo, colocar em prática algum projeto que estava engavetado, algum curso online. Ou seja: exercitar a mente de alguma forma buscando o autoconhecimento e também ajudando a passar o tempo. Cuidar de si mesmo com carinho e também buscar descansar e desacelerar.

A senhora afirma no artigo que temos que trabalhar nossa inteligência emocional “a favor da razão”. Como assim?

Temos que acreditar que a tempestade irá passar e tudo voltará ao normal. Neste momento, se faz necessária essa tranquilidade. Lembrando que pensamentos bons, otimistas irão afetar de forma positiva o nosso sistema imunológico. Isso é um trabalho de inteligência emocional. É você trabalhar sua mente afastando os pensamentos pessimistas, a tristeza e o medo, de forma a ajudar a boa energia promovendo autoestima, bem-estar e perseverança. Trazendo sempre à mente a ideia de que o momento difícil é passageiro e, se você mantiver a calma, o bom senso e a tranquilidade, poderá com sensatez cuidar-se muito mais, promovendo o bem-estar para si e para os seus.