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A época em que Machida era um misterioso carateca

O carioca Denis Martins acompanha o esporte desde os anos 1980 e traz histórias, causos e contos do MMA


Enfrentar o Dragão Lyoto Machida nunca foi ou será uma tarefa fácil. Seja pela sua experiência como lutador aos 36 anos, ou o fator surpresa que o brasileiro radicado em Los Angeles, Estados Unidos, apresentava em suas primeiras lutas.

Se eu der uma pressão, ele ficará em apuros

O começo da carreira de Lyoto Machida é engraçado em vários aspectos, principalmente ao recordar que alguns não sabiam que o atleta com nome e feições japonesas era na verdade um baiano residente em Belém, PA.

Nas primeiras aparições do faixa-preta de caratê no octógono, em meados de 2007, narrador e comentarista do Ultimate Fighting Championship se referiam ao lutador como um misterioso quebra-cabeças a ser desvendado. Certo, ele perdeu algumas lutas, mas naquelas iniciais, até a conquista do cinturão, encontrar brechas ou uma forma de anular seu jogo escorregadio e eficiente era quase impossível.
Nossa próxima experiência vai precisar que você volte no tempo e imagine ter que enfrentar um Lyoto completamente desconhecido, com apenas 1-0 no cartel e sem acesso (como forma de estudo) a essa única luta feita pelo brasileiro. Complicado, não é?

O Hall da Fama e finalista do The Ultimate Fighter 1, Stephan Bonnar, foi o cara em questão para essa árdua missão.

Há 12 anos, quando o invicto Bonnar e o sr. incógnito Lyoto ainda não tinham aspirações de ingressar no UFC, uma luta entre os dois foi casada para o Jungle FC, em Manaus. Com pouca pompa naquela época, o encontro era "apenas mais um" no meio de um card de estrelas. E a forma como o futuro Hall da Fama se referia ao embate, deixava nítido que apesar do desconhecimento quase que completo do adversário, ele estava convicto da vitória.

"'Loyota' vem do caratê, se eu der uma pressão, ele ficará em apuros", mencionou Bonnar durante os treinos no Rio de Janeiro, antes de embarcar para o Amazonas.

Reparem que o nome acima não é um erro de digitação, era como Bonnar acreditava que Lyoto se chamava. O pupilo do falecido Carlson Gracie e duas vezes Golden Gloves estava muito confiante, mas não contava com um detalhe: Lyoto Machida já era o cara, mesmo não tendo um par de lutas em seu recorde.

Durante esse combate, o tradicional estilo do carateca era tão confuso para Bonnar, que ele simplesmente não viu a cor da bola, ou melhor seu punhos nunca encontraram o alvo. Tal fato ficava nítido nos momentos que a luta era interrompida para que os médicos estancassem o sangue no rosto do norte-americano, sua fisionomia de 'estou perdido' contrastava com a serenidade de um pesado Lyoto Machida (ele lutava um pouco acima dos 93 quilos, bem distante dos 84 deste sábado).

A luta foi interrompida definitivamente aos 4m21s, devido a um sangramento abaixo do olho direito de Bonnar. Ele ficou inconformado com a paralisação, mas, dias após a derrota, com o rosto bem avariado, 'The American Psycho' estava consciente que aquela foi a melhor decisão.

"O cara parecia ter uma ferradura dentro das luvas, toda hora que ia golpeá-lo, era ele quem me acertava. Agora já foi, se alguém perguntar, vou dizer que sou sparring do Mike Tyson (risos)."

Talvez, para o bem humorado Bonnar, a dor por aquela derrota pode ter sido apaziguada pelo caminho que Lyoto traçou até a glória, quando chegou a conquistar o título meio-pesado do UFC de forma invicta, confundindo e martelando 15 adversários no processo.

Então, se nos dias de hoje, enfrentar o Lyoto Machida é um osso duro de roer, imagina há mais de 10 anos?