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Lifestyle

“Eu venci, mas guerreira mesmo é minha irmã, que está lutando pela vida”, diz Bethe Correia

Atleta faz campanha pelo Outubro Rosa com Tatiana, que enfrenta um câncer de mama. Aqui, as duas dão depoimentos sobre como é a vida de um paciente e de sua família

Quando foi informada de que o UFC queria casar uma luta sua com a atleta americana Sijara Eubanks, a paraibana Bethe Correia titubeou. Não tinha certeza se deveria aceitar a luta. O empecilho não era a adversária nem seu próprio momento na carreira – que não andava muito bom, já que ela não vencia desde 2016 e vinha de um empate e duas derrotas consecutivas. O que pegou para Bethe foi o diagnóstico que a irmã Tatiana recebera fazia pouco tempo. Tau, como ela a chama, estava com câncer de mama em estágio avançado.

Com dor no coração por não poder acompanhar todas as quimioterapias às quais a irmã se submeteria e por ter que ficar longe por três meses, Bethe acabou aceitando a luta, até porque era sua chance de dar a volta por cima. No fim, uma deu força à outra. Bethe surpreendeu-se com a atitude de sua tímida e retraída irmã, que, com garra e sem perder a alegria, enfrentava o tremendo mal-estar do tratamento e via seus cabelos caírem. Do outro lado, Tatiana viu a irmã “como uma fênix, renascer das cinzas”, em suas palavras, e bater o peso, superar um primeiro round desfavorável até vencer sua adversária no UFC México, no fim de setembro.

De volta ao Brasil, a primeira coisa que Bethe fez foi acordar no dia seguinte às 5h da manhã, dirigir quatro horas e encontrar a irmã, que fazia sua 11ª sessão de quimioterapia em Campina Grande. As duas participam da campanha Outubro Rosa, que pretende incentivar as mulheres a fazer o autoexame das mamas. Aqui, Tatiana conta como é receber um diagnóstico de câncer e tratar a doença. E Bethe relata como é conviver com o medo de se perder alguém a quem ama tanto.

Tatiana Correia, 46 anos

“Nunca fui uma pessoa de ir ao médico e nem de fazer o autoexame, de me tocar. Sempre fugi dessas coisas acho que até por medo de descobrir alguma coisa. Tinha feito uma ultrassonografia em 2011 e de lá até o fim do ano passado não fui a médico algum. Estava com sobrepeso e comecei a fazer uma dieta para emagrecer aos poucos. Meus seios eram grandes e olhando não se percebia nada.

Mas no começo de dezembro passado, depois de um banho fui me olhar no espelho para me arrumar. Como meus seios estavam menores, vi algo anormal no direito. Estava diferente do outro, tinha uma pequena ondulação. O bico também estava diferente. Resolvi me apalpar e vi que tinha um caroço, que já estava grandinho. Percebi que tinha alguma coisa errada. Só que eu cometi um erro: o de não contar a ninguém. Não contei nem à minha irmã Suzana, que é justamente cirurgiã oncológica. Fiquei assustada e passei alguns meses escondendo.

Só em junho deste ano tomei coragem para poder falar com a minha irmã. Ela me examinou e viu logo que realmente se tratava de um câncer. Comecei a chorar. Nesse momento, nossa mãe entrou no quarto, perguntou o que estava acontecendo e Suzana contou que eu estava com câncer de mama. Foi doloroso pra mim ver o semblante de minha mãe. Ela saiu triste do quarto e entrou num quartinho de rezas dela. Lá da sala eu escutava seus gritos, um clamor desesperado. Aquilo me angustiou muito, não queria ver minha mãe sofrendo, não queria ver minha família sofrendo. Falei para cada um deles: ‘Não quero vocês chorando por minha causa. Quero vocês bem, junto comigo, vencendo essa’.

Claro que foi muito, muito difícil receber o diagnóstico. Achava que ia morrer. Me sentia uma fracassada, uma derrotada, tinha vergonha de estar com câncer. Apesar de a medicina estar avançada e as pessoas estarem sendo curadas, o primeiro impacto é terrível. Mas minha irmã Suzana me levantou. Mostrou a mim que era possível vencer. Aquele sentimento de tristeza, depressivo foi saindo. Mas não foi fácil, não foi de uma hora para outra. Comecei a olhar para a minha vitória. Viver um dia de cada vez. Ser feliz hoje. Não vou olhar para a circunstância, vou enfrentar a situação e vencer essa situação e ficar curada. Estou a cada dia vencendo o câncer. Quando vem um pensamento ruim, me desvio dele e procuro olhar para a vitória. Vejo que o tratamento está fazendo efeito. Não deixo nada me oprimir, desanimar ou me deixar pra baixo. Suzana falou: ‘Você vai ser curada’. Ela me disse que posso morrer de qualquer coisa, mas que não vou morrer de câncer. E está fazendo tudo para isso.

Descobri depois que meu tumor é o ductal hormônio positivo para progesterona e estrogênio HER negativo, estágio 3. Já está avançado. Apresentou nódulo de 6 centímetros e também um linfonodo na minha axila, que já desapareceu. Vou provavelmente passar por uma cirurgia dia 20 de novembro, quando acabar as quatro quimioterapias vermelhas e as 12 brancas. Vou tirar todo o seio, uma mastectomia radical. Depois, vou fazer a radioterapia.

Minha irmã Bethe sempre esteve presente. No dia em que fiquei sabendo que estava com câncer, ela estava junto e me disse que estaria comigo para o que desse e viesse, para o que eu precisasse. Levantou muito minha autoestima, me deu muita força. Antes da minha primeira quimioterapia, que ela acompanhou, ela me levou passear, no shopping, para lanchar. Comprou bolos e doces. E disse que eu ia fazer quimioterapia e minha alimentação seria restrita, então eu devia comer, aproveitar antes de ela começar. Fiquei preocupada quando ela foi fazer camp para a luta. Pensava que ela vinha de derrotas, não tinha batido o peso da última vez e estava com a irmã em tratamento de câncer. Não foi fácil para ela passar pelo treinamento, bater o peso e alcançar a vitória. Teve que tirar pedras do caminho, pular montes – e não desistiu e venceu.

Quando observei a Bethe treinando bem, porque ela mandava vídeos e fotos, eu me animava. Fiquei impressionada com a dedicação dela, vi como estava forte. Isso já foi passando uma energia boa pra mim. Quando ela bateu o peso, fiquei feliz demais. Nossa, ela conseguiu! Quando ela venceu aquela luta então... A garra, a determinação, lutar por aquilo que ela queria. Ela não queria só voltar, queria vencer. Vi minha irmã renascendo das cinzas. Quando achavam que não teria mais jeito, ela renasceu. E ela passou isso para mim. Se eu não desistir, vou renascer das cinzas e vou alcançar minha cura. Estou lutando pela vida. Me espelho nela.”

Bethe Correia, 36 anos

“Tenho três irmãs, tudo mulher. Minha relação com elas é de muita cumplicidade. Sou a caçula e fui criada por elas com tratamento de mãe e filha. Tatiana é a segunda mais velha e, quando minhas outras duas irmãs se casaram cedo, ela foi quem ficou mais tempo morando comigo na casa dos meus pais, antes de eu me mudar para Natal, com 25 anos. Das quatro filhas, ela é a mais doce, mais carinhosa. Foi bem complicado saber que ela estava com câncer porque a gente não esperava.

Tatiana é igual a maioria das mulheres que descobre o câncer: percebe o carocinho, mas tem medo de encarar a realidade, medo de encarar o câncer, medo de falar para a família. E ficou retraída. Por isso a importância dessa campanha tão bonita do Outubro Rosa, para tentar encorajá-las, meninas como minha irmã Tatiana, a falarem algo, a procurarem ajuda quando perceberem alguma coisa de errado. Ela percebeu o caroço, ficou com medo e ficou quieta. E o tumor foi crescendo. Apareceu outro caroço nas axilas. Mas ela tomou coragem, graças a Deus, e contou para nossa irmã Suzana, que é por coincidência oncologista. O tumor já estava grande e foi um choque. Por que não contou para a gente logo? Ao mesmo tempo não podíamos condená-la, porque isso é comum entre as mulheres, precisávamos apoiá-la. Eu chorei pra caramba. E assim que apareceu a luta [no UFC México], não sabia se aceitava ou não porque fiquei muito em choque.

Meus pais são idosos, não estavam muito bem para aceitar essa realidade. Aqui em casa todo mundo ficou sem saber o que fazer. Até minha irmã que trabalha com isso ficou as pernas bambas – mas falou que ia dar tudo para curar minha irmã. Entrei em camp e tive que ficar longe dela por quase três meses, preocupada e vendo tudo de longe. Tinha dia que, no meio do meu treinamento, eu começava a chorar com peninha na minha irmã, vendo o cabelo dela cair.

A Tatiana, que das irmãs é a mais delicada, carinhosa e até chorona – a gente diz que é a mais dramática –, me surpreendeu. Muitos pacientes se entregam, não querem mais lutar, não querem tratamento, enrolam, e ela foi muito guerreira. Tem vontade de tratar, vontade de seguir, é muito disciplinada, faz tudo que a médica passa a ela nos mínimos detalhes. Todo dia está com um sorriso no rosto, superfeliz interagindo com outros pacientes com câncer, no Instagram. Ela está sendo um exemplo.

Você ver alguém passar por um momento de dificuldade com um sorriso no rosto nos torna mais fortes. Vi minha irmã sendo guerreira, superando cada quimioterapia, cada perda de peso, cada cabelo caído, cada momento de dor. Para fazer um camp, tem que ser muito guerreiro. MMA não é para quem acha legal, é para quem aguenta a pressão psicológica do que é um camp, do público cobrando. Estou ali lutando, mas acho que a luta maior é a dela. Por mais que seja difícil estar com uma adversária querendo lhe nocautear ou finalizar, ela está lutando pela vida, lutando contra a morte. Não tenho dúvida de que ela vai sair vitoriosa porque é muito forte.

Fui guerreira naquela noite e ganhei, mas ela é muito mais porque está lutando com um inimigo muito mais duro. Não tem como não dedicar aquela vitória para ela. Sei que naquela noite dei alegria para ela, dei alegria para minha família. Por alguns minutos, eles esqueceram a dor que é ter uma filha e uma irmã com câncer e sentiram alegria com a minha vitória. Pelo UFC, sempre tenho que fazer exames, checkups. Mas agora tanto eu como todas as mulheres da minha família vamos procurar um geneticista para ver se há possibilidade de termos câncer no futuro e já cuidar desde agora. Às vezes deixamos para tomar iniciativa quando a gente descobre algo. Com a doença da minha irmã, a gente está pensando mais em prevenção mesmo. Até nisso a Tati me ajudou: a pensar em me cuidar mais também. Queremos viver, quero ter filhos, ver meus sobrinhos crescerem. A vida é tão bonita. Às vezes um pequeno detalhe faz toda a diferença.”