A divisão peso-pena vive um momento curioso. Na prática, pouco mudou no cenário do cinturão desde que Alexander Volkanovski retomou o título, em abril de 2025. Após vencer Diego Lopes por decisão, o australiano ficou afastado por um período, e agora, quando o Octógono retornar a Sydney para o UFC 325, ambos voltarão a se enfrentar, mais uma vez com o título em jogo.
Isso não significa que os últimos dez meses tenham sido mornos na categoria. Pelo contrário. Lerone Murphy conquistou um nocaute marcante sobre Aaron Pico, Aljamain Sterling entrou de vez no Top 5 com vitória sobre Brian Ortega, e novos nomes embalados como Youssef Zalal e Steve Garcia empilharam triunfos, mirando espaço entre os grandes da divisão.
É nesse contexto competitivo que dois nomes conhecidos colidem no UFC 324: Arnold Allen e Jean Silva. Embora seja improvável que o vencedor saia diretamente credenciado para uma disputa de cinturão, o impacto desse confronto é enorme. Uma vitória pode deixar qualquer um deles a apenas um passo de uma chance pelo título, enquanto uma derrota torna o caminho rumo ao topo bem mais tortuoso.
O duelo reúne todos os ingredientes de uma "Luta da Noite": relevância, estilos contrastantes e talento em alto nível. Abaixo, vamos analisar cada um dos lutadores e o que esperar do confronto.
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Arnold Allen
Arnold Allen comemora a vitória sobre Dan Hooker na luta co-principal do UFC Londres. (Foto por Chris Unger/Zuffa LLC)
Manter-se no Top 10 de qualquer divisão por meia década já é um feito considerável. Fazer isso em uma categoria competitiva como o peso-pena torna o feito ainda mais impressionante, e é exatamente isso que Arnold Allen construiu até aqui. Integrante do plantel desde junho de 2015, o inglês chegou ao UFC ainda jovem e, ao longo de sete anos, emendou uma sequência de nove vitórias.
As derrotas para Max Holloway e Movsar Evloev interromperam sua ascensão, mas Allen respondeu com maturidade ao superar Giga Chikadze por decisão no UFC 304, reafirmando sua presença entre os melhores da divisão.
Se existe um obstáculo recorrente em sua trajetória, ele está menos relacionado às habilidades dentro do Octógono e mais à falta de continuidade. Lesões atrapalharam sua regularidade: em quase 11 anos de UFC, “Almighty” lutou apenas 13 vezes e só conseguiu atuar mais de uma vez no mesmo ano em duas ocasiões. Quando está ativo, porém, entrega um jogo completo, inteligente e equilibrado, que ainda parece ter margem para evolução.
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Agora, Allen vive um momento decisivo da carreira. Precisa somar vitórias marcantes para continuar avançando rumo ao topo ou corre o risco de ficar preso ao limbo de defender posição contra novos lutadores em busca do ranking.
Jean Silva
Bryce Mitchell venceu Jean Silva no card principal do UFC 314. (Foto por Jeff Bottari/Zuffa LLC)
Em um esporte repleto de personalidades excêntricas, Jean Silva talvez seja o mais imprevisível de todos. Conhecido como “Lord”, o brasileiro foi um dos principais símbolos da ascensão da equipe Fighting Nerds em 2024 e no início de 2025, acumulando cinco vitórias por via rápida em cinco apresentações no UFC. Além dos resultados, ele conquistou o público com seu jeito totalmente sem filtros.
Essa sequência eletrizante teve um freio abrupto quando encarou Diego Lopes em sua primeira luta principal, durante o Noche UFC. O brasileiro crescia no combate, especialmente no 2º round, conectando golpes que haviam derrubado adversários anteriores. No entanto, acabou surpreendido por uma cotovelada giratória espetacular. Apesar da resistência, a interrupção do árbitro encerrou uma invencibilidade de 13 lutas, que durava desde novembro de 2018.
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Perder para um desafiante ao título conhecido pela durabilidade não é motivo para descrédito. Ainda mais no caso de um atleta que vinha de quatro bônus de Performance da Noite consecutivos. Com instinto apurado para encerrar os confrontos, o lutador de 29 anos é garantia de espetáculo sempre que caminha rumo ao Octógono.
Encontro de estilos
Jean Silva comemora vitória no UFC Seattle. (Foto por Chris Unger/Zuffa LLC)
Apesar das provocações e da imprevisibilidade, Jean é um lutador astuto, que demonstra confiança absoluta no próprio timing e potência. Seus números impressionam: são 2,24 knockdowns a cada 15 minutos — a terceira melhor marca da história dos penas — além de uma taxa de acerto de 50% nos golpes significativos.
Do outro lado, Allen se destaca pela consciência defensiva. Ele possui 61,6% de defesa de golpes significativos, índice que o coloca empatado como o quinto melhor da divisão nesse quesito. Esse desempenho é fruto de um controle de distância refinado e de uma guarda adaptada, com cotovelo alto, a partir da base de canhoto. Eventualmente, o inglês também recorre ao grappling, o que pode ser uma ferramenta para quebrar o ritmo do brasileiro, embora o Jean apresente 78% de defesa de quedas.
Se a luta se transformar em uma trocação franca, o cenário tende a favorecer o brasileiro, ainda que Allen já tenha se saído bem em batalhas desse tipo. Em um confronto mais técnico, a vantagem parece pender para o inglês, mas o brasileiro possui repertório e timing suficientes para encontrar o golpe decisivo a qualquer momento.
No fim das contas, trata-se de uma joia no card principal do UFC 324. Um confronto explosivo, relevante para o futuro da divisão e simplesmente imperdível para quem acompanha o MMA de alto nível.
O UFC 324: Gaethje x Pimblett foi um evento realizado em 24 de janeiro de 2026. Confira aqui a cobertura completa e reveja todas as lutas só no Paramount+.