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Blogs - Marcelo Alonso

Imigrantes dando as cartas no UFC

Definitivamente junho não foi um bom mês para o MMA brasileiro. Pior que as 10 derrotas em 14 lutas, foram as três possibilidades perdidas de cinturão com Marlon, Cigano e Formiga derrotados por nocaute técnico. O ponto positivo é poder perceber que os torcedores brasileiros têm cada vez mais entendido que MMA não é futebol e aprendido a respeitar seus representantes, também nas derrotas.

Afinal de contas, no esporte individual mais duro que existe, voltas por cima acontecem com enorme frequência e o derrotado de hoje pode ser o campeão de amanhã. Que o digam os campeões das duas divisões extremas do esporte (moscas e pesados). Se não fossem as derrotas para Jon Jones e Demetrious Johnson, provavelmente Daniel Cormier e Henry Cejudo não tivessem dobrado a carga de treinos e feito os ajustes que lhes conduziram a conquista de dois cinturões em duas categorias.

Veja também: Diário da International Fight Week | Como assistir ao UFC 239

E por falar em volta por cima, as vitórias de Benavidez e Ngannou (sobre Formiga e Cigano) no último sábado me chamaram a atenção para um fato curioso. Num momento em que a imigração é um dos assuntos mais debatidos no mundo, é interessante notar que sete dos doze cinturões do UFC estão hoje nas mãos de imigrantes ou descendentes deles.

Nas duas divisões mais leves do evento (moscas e galos) quem dá as cartas é o filho de mexicanos, Henry Cejudo. E seu possível próximo desafiante no peso-mosca será Joseph Benavidez, também filho de mexicanos.

Na categoria dos pesados, Francis Ngannou, que nasceu em Camarões, mas se mudou ainda muito novo para Paris, após o nocaute sobre Cigano, praticamente assegurou o direito de lutar com o vencedor do combate principal do UFC 241 (17 de agosto) entre o atual campeão Daniel Cormier e o filho de croatas nascido nos Estados Unidos, Stipe Miocic.

O camaronês Francis Ngannou precisou de 71 segundos para nocautear Junior Cigano no UFC Minneapolis, neste sábado (29).


Mas é nos meio-médios e médios que a força dos imigrantes africanos têm impressionado mais, com os nigerianos Kamaru Usman e Israel Adesanya.

Radicado nos Estados Unidos desde muito jovem, Usman conseguiu mesclar seu eficiente wrestling com o kickboxing que aprendeu na Blackzilians (atual Hard Knocks 365), conquistando o cinturão dos meio-médios em cima de Tyron Woodley e se tornando um desafio complicadíssimo para qualquer desafiante da divisão. Já seu compatriota Israel Adesanya, que migrou bem novo para a Austrália, desenvolveu lá seu talento natural para o kickboxing. Depois de se consagrar em eventos de trocação, Israel migrou para o MMA onde aplicou com maestria sua técnica, adicionada a uma boa gama de defesas de quedas. Não por acaso Adesanya acaba de conquistar o cinturão interino de uma das mais disputadas divisões do UFC, após vencer o filho de imigrantes mexicanos (Kelvin Gastelum) numa das melhores lutas do ano. Até o fim de 2019, Israel deverá lutar com o campeão linear, o australiano Robert Whittaker.

Nas divisões femininas, o domínio dos imigrantes se repete. Das quatro campeãs, só a brasileira Jéssica Bate-Estaca treina no país onde nasceu. Nascida no Quirguistão, a campeã peso-mosca Valentina Shevchenko vive no Peru há oito anos. E a nossa maior campeã, Amanda Nunes, detentora dos cinturões do peso-galo e pena femininos, mora nos Estados Unidos desde 2011. O crescimento dos campeões imigrantes no maior evento de MMA do mundo só comprova que hoje o MMA é um esporte sem fronteiras. Há muito tempo que a evolução do Vale-Tudo brasileiro levado ao mundo por Rorion Gracie passou a ser uma oportunidade de inclusão real para profissionais do mundo tudo. Independente do local de nascimento, indiscutivelmente o MMA possibilita uma vida digna para profissionais do mundo todo.

França legaliza MMA

Diante dos fatos e desta nova realidade, não faz sentido uma nação negar o direito à prática do MMA, um esporte com regras e que abre tantas possibilidades, independentemente de classe social. A França acaba de reconhecer isso, oficialmente voltando a legalizar o esporte em seu território. A notícia foi dada pela própria ministra do esporte em sua conta no Twitter. De acordo com Roxana Maracineanu, será criada uma federação esportiva para regular o esporte ainda em 2019. De acordo com a ministra, a partir de 2020 o MMA estará oficialmente liberado para prática e realização de eventos em território francês. Uma notícia maravilhosa para os fanáticos fãs franceses que não vão mais precisar ir a Londres para assistir seus atletas competindo.

A novidade abre ainda a possibilidade de o UFC democratizar ainda mais sua influência mundial. Depois de realizar eventos na China, República Tcheca, Argentina, Rússia, Chile e Uruguai (no próximo dia 10 de agosto), quem sabe o maior evento do mundo não chegue à terra de Napoleão?

O excelente momento de Ngannou certamente seria uma ótima plataforma para a popularização do esporte naquele país. O Brasil, de Aldo e Anderson Silva, e o Canadá, de GSP, são ótimos exemplos de que não existe uma estratégia de marketing melhor para cativar novos fãs e popularizar um esporte do que ter um representante campeão, mesmo que ele não tenha nascido no país.

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