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Blogs - Marcelo Alonso

A inauguração da estátua de Carlson Gracie

Após 10 anos de muitas batalhas junto à prefeitura, finalmente na segunda-feira (13) foi inaugurada, na praça Shimon Peres em Copacabana, a estátua de Carlson Gracie que, se não tivesse falecido em 2006, estaria completando 87 anos. 

A cerimônia reuniu mais de 500 pessoas na saída da estação do metrô da Siqueira Campos a poucos metros do famoso quartel general na rua Figueiredo de Magalhães, onde Carlson formou várias gerações de campeões, tanto no jiu-jítsu, quanto no MMA. Lá estavam Ricardo Arona, Fernando Pinduka, Carlão Barreto, Mario Cupertino, De La Riva, Hugo Duarte, Robson, Reyson, Reila e Relson Gracie e vários outros familiares, alunos e admiradores do mestre.

A inauguração foi transmitida ao vivo pelo RJ TV na Rede Globo e, obviamente, despertou a curiosidade de leigos e até mesmo dos fãs mais atuais, que passaram a acompanhar o MMA a partir da vitória de Anderson Silva sobre Vitor Belfort.

Se muitos fãs de MMA não conhecem Carlson, imaginem a grande maioria da população. Me chamou a atenção uma senhora, que deve morar na vizinhança, e passeava tranquilamente com seu cachorro em torno de 11 horas. Assustada com a quantidade de pessoas que já começavam a se aglomerar ao redor da estátua, que ainda estava coberta por um pano preto, se aproximou de mim e perguntou após ler a placa: “quem foi este tal Gracie da estátua?”

E foi a dúvida da simpática senhorinha que me inspirou a escrever a coluna de hoje aqui no blog.

Para entender quem foi o primeiro personagem do mundo das artes marciais imortalizado com uma estátua no Rio de Janeiro é necessário dividir seu legado em três partes: O Lutador, o democratizador do esporte, e o formador de campeões.

Como lutador, Carlson ficou conhecido ao estampar a capa de diversos jornais do Rio em 1956 após vingar a derrota do tio Hélio para o ex-aluno Valdemar Santana. Depois desta luta ele passou 19 anos como o principal representante da família enfrentando os mais duros lutadores do Brasil nas regras do Vale-Tudo, ou seja, sem luvas, sem divisões de peso, sem regras e, na maioria das vezes, sem limite de tempo.

Mas sem dúvida alguma a maior contribuição do filho mais velho de Carlos Gracie ocorreu fora dos ringues. Quando se aposentou em 1970, Carlson abriu sua própria academia. E nela passou a formar grandes campeões que permitiram algo essencial para o crescimento de qualquer modalidade: a competição em alto nível, algo que antes só ocorria dentro da própria família.

Generoso e com um impressionante espírito competitivo, Carlson passou a permitir que os alunos mais talentosos treinassem de graça e não tardou a atingir seu objetivo, dominando por quase 20 anos as principais competições de jiu-jítsu do Brasil.

E foi graças ao alto nível técnico e competitivo que o jiu-jítsu atingiu por intermédio da “ovelha negra da família”, que Carlos Gracie Jr., irmão mais novo de Carlson, percebeu a necessidade da criação da Confederação brasileira de jiu-jítsu, permitindo a expansão do esporte a partir da criação do Mundial da modalidade em 1996.

Se hoje o jiu-jítsu se encontra disseminado no mundo todo gerando emprego e vida digna para milhares de faixas-pretas, muito se deve à democratização do esporte iniciada por Carlson Gracie nos anos 1970.

GRANDES CAMPEÕES NO MMA

No MMA a importância de Carlson também é indiscutível.  Depois da consagração do sobrinho Royce Gracie no UFC 1 e a explosão mundial da modalidade, ele promoveu uma migração da maior parte de seus campeões para os ringues. Entre 1995 e 1998, só no UFC, colocou Vitor Belfort, Murilo Bustamante, Allan Góes, Conan Silveira, Wallid Ismail, Carlão Barreto e André Pederneiras. A partir desta primeira geração de campeões outros novos vieram para marcar a escola Carlson no Pride: Rodrigo Minotauro, Rogério Minotouro, Ricardo Arona, Paulão Filho.

Mesmo com a maioria deles já tendo se aposentado, hoje o DNA do mestre continua presente nas principais equipes de MMA do mundo por intermédio de alunos do mestre, ou alunos dos alunos.

TURISMO MARCIAL

Sinceramente espero que esta escultura ao lado do metrô de Copacabana signifique um pontapé inicial para que, finalmente, outros grandes ícones precursores possam ser reconhecidos no Brasil todo, dando nome a ruas, praças e ginásios.

Com todo respeito a outras criações brasileiras, mas nenhuma outra teve tanto impacto econômico e social mundial como o jiu-jítsu e MMA. Me dei ao trabalho de contar na agenda do Sherdog. Só entre sexta e sábado foram realizados 42 eventos de MMA pelo mundo todo (Azerbaijão, Rep. Tcheca, Índia, Rússia, Brasil, EUA e outros 11 países). Se levarmos em conta a média de 12 lutas (24 atletas por evento) chegaremos a mais de 1000 profissionais (só lutadores) impactados em 2 dias do mês de agosto. Imaginem em um ano. Se ampliarmos isso para o mundo do jiu-jítsu, chegaremos facilmente a muitas centenas de milhares de pessoas que hoje vivem dignamente mundo afora graças ao jiu-jítsu e MMA.

É passada a hora de aprendermos com os americanos a capitalizar em cima de nossos ícones. Quantas pessoas não vistam a Filadélfia todos os anos e se emocionam ao subir os famosos 72 degraus para tirar uma selfie na estátua gigante de Rocky, o Lutador? Um personagem de ficção que ajuda a alavancar o turismo local. Pois estão certíssimos! Errados somos nós que não exploramos a riquíssima história do berço do MMA e precisamos passar 10 anos brigando com políticos para conseguirmos, finalmente, colocar uma estátua de um herói de verdade numa praça ao lado do metrô.

Que o sucesso da estátua de Carlson inspire a classe política a entender o potencial do turismo marcial desta cidade e quem sabe um dia investir num MUSEU DA LUTA, contando mais de 100 anos de história: do encontro entre Conde Koma e Carlos Gracie, a consagração de diversas gerações brasileiras no UFC. Obviamente Ninguém é obrigado a gostar de esportes de combate, mas o brasileiro precisa, ao menos, ter o democrático direito de conhecer e se orgulhar da história de guerreiros nacionais que criaram dois esportes que hoje impactam positivamente na vida de tanta gente. Que a inauguração da estátua de Carlson, no último dia 12 de agosto, seja um marco desta grande virada.