Um confronto intrigante entre dois lutadores com estilos distintos irá liderar UFC Vegas 96 neste sábado (24), no UFC Apex, em Las Vegas. O veterano Jared Cannonier enfrenta a estrela em ascensão Caio Borralho na luta principal, em uma disputa válida pelo peso-médio. O norte-americano busca defender sua posição no Top 5 da categoria, enquanto o brasileiro almeja entrar na elite de uma das divisões mais competitivas do UFC.
Embora a diferença de três anos entre o início das carreiras profissionais de ambos não permita rotular esse duelo como um choque de gerações, a trajetória de cada um no Ultimate é bem distinta. Cannonier já consolidou seu nome na organização, enquanto Borralho busca se firmar como um dos melhores pesos-médios da atualidade. Vamos analisar os pontos fortes de cada lutador e o que podemos esperar desse confronto.
Jared Cannonier
Jared Cannonier comemora a vitória na luta principal do UFC Vegas 75. (Foto por Chris Unger/Zuffa LLC)
Pontos chave: Quatro nocautes no peso-médio (4º lugar entre os pesos-médios ativos), recorde de golpes significativos em uma luta no peso-médio (241 contra Marvin Vettori), 75% de defesa de quedas.
Aos 40 anos, Jared Cannonier é um dos pesos-médios mais estabelecidos do UFC. Atualmente ocupando o 5º lugar no ranking, o norte-americano traz consigo uma vasta experiência, tendo enfrentado praticamente todos os lutadores de ponta da divisão, exceto o campeão Dricus Du Plessis. "The Killa Gorilla", inclusive, já teve a oportunidade de disputar o cinturão da categoria no UFC 276, mas foi superado por Israel Adesanya.
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Não há dúvidas que sua principal caractéristica é o poder de nocaute. Junto de Conor McGregor, o norte-americano é o único lutador que conseguiu vencer oponentes por este método em três categorias diferentes (peso-pesado, peso meio-pesado e peso-médio), deixando claro que sua força se traduz no Octógono - independente da divisão.
Justamente por conta dessa característica, Cannonier é perigoso em todos os momentos. Ele alterna a base canhota para a destra durante os confrontos, utiliza bem os chutes e, apesar de ter sido nocauteado por Nassourdine Imavov em sua última apresentação, geralmente apresenta uma boa resistência.
Jared Cannonier golpeia Nassourdine Imavov na luta principal do UFC Louisville. (Foto por Jeff Bottari/Zuffa LLC)
Uma curiosidade é que apesar de ter o poder de vencer com apenas um golpe, cada vez mais o norte-americano vem se mostrando como um striker baseado em volume. Enquanto nas vitórias contra David Branch, Jack Hermansson e Derek Brunson ele não acertou mais do que 55 golpes significativos, ele teve 90 contra Israel Adesanya, 141 contra Sean Strickland e 241 contra Marvin Vettori - o recorde na história do peso-médio.
Quando o assunto é grappling, o ex-desafiante dá preferência para a parte defensiva ao invés de ofensiva. Ele tem uma sólida taxa de 75% de defesas de queda e, apesar de não ter um histórico de tentar derrubar seus oponentes, conseguiu colocar seus rivais no solo cinco vezes nas últimas duas lutas.
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O que pesa contra Cannonier atualmente são as poucas lutas realizadas nos últimos anos (esta será a terceira desde dezembro de 2022), muito por conta das lesões sofridas, além da idade avançada, já que ele é um exceção quando se fala de lutadores com mais de 40 anos e que ainda pertencem à elite de qualquer categoria de peso do UFC.
Caio Borralho
Caio Borralho comemora a vitória no UFC Vegas 72. (Foto por Jeff Bottari/Zuffa LLC)
Pontos chave: Seis vitórias seguidas (2º lugar entre os pesos-médios ativos), 1,99 golpes absorvidos por minuto (1º lugar entre os pesos-médios ativos), 42,1% de tempo de controle (4º lugar entre os pesos-médios ativos).
Quando falamos de casos de sucesso vindos do Dana White's Contender Series, não podemos deixar Caio Borralho de fora. O peso-médio brasileiro participou da 5ª temporada do programa e precisou de duas vitórias para conquistar seu tão sonhado contrato com a organização.
De lá para cá, ele tem sido impecável no Octógono e venceu os seis duelos que fez, juntando-se a Brendan Allen como os maiores vitoriosos do peso-médio de 2022 até os dias atuais. Porém, quando se trata de carreira, "The Natural" não sabe o que é perder há 15 lutas - o que deixa tudo ainda mais impressionante.
Maior expoente da The Fighting Nerds, Borralho tem um estilo de luta que casa perfeitamente com o nome da academia - inteligente. O peso-médio tem uma base em pé bem longa, com postura assemelhada a de caratecas, e luta de forma solta, valorizando a movimentação e o controle de distância, o que faz com que ele seja o peso-médio com o menor número de golpes significativos absorvidos em toda a categoria.
Caio Borralho golpeia Paul Craig no UFC 301. (Foto por Alexandre Loureiro/Zuffa LLC)
Sua maior ferramenta, porém, é o grappling. Faixa-preta em judô e jiu-jítsu, Borralho sabe aproveitar as oportunidades para usar um double leg explosivo e colocar seus rivais no chão, garantindo o controle do combate. O brasileiro é paciente e trabalha mais o jogo posicional para, assim que ver uma brecha, buscar a finalização. Caso essa oportunidade não apareça, ele se sente confortável por cima, pontuando e cansando seu oponente.
Além disso, já vimos Borralho usar o MMA em todas as suas vertentes no Octógono. Se o adversário dá problemas em pé, ele busca a luta agarrada - vide a vitória contra Armen Petrosyan. Se o rival mostra resistência no grappling, ele prioriza o striking - como em seu triunfo contra Paul Craig.
Seu QI de luta é um diferencial e suas decisões durante os confrontos mostram-se as mais acertadas possíveis. Talvez a falta de experiência em cinco rounds pese contra o brasileiro no confronto deste final de semana, mas tudo leva a crer que Borralho está em seu auge e vive seu momento mais maduro como atleta.
O que esperar da luta?
Arte com as fotos de Jared Cannonier e Caio Borralho. (Divulgação)
Vejo esse confronto se desenrolando como uma batalha tática. É de se imaginar, no entanto, que ambos serão cuidadosos e estudiosos no começo do combate, especialmente pelo perigo que representam um para o outro.
Quando pensamos na luta em pé, a vantagem de força e volume de golpes fica com Cannonier. O norte-americano já provou que pode ser fatal no striking e não seria uma boa ideia trocar golpes de forma franca com ele. No entanto, isso não deve ser problema para Borralho, que raramente engaja dessa forma e prefere golpear à distância e sair do raio de ação de seu adversário. Há de se considerar que Octógono menor do UFC Apex pode ser uma desvantagem para o brasileiro nesse sentido - especialmente por ele manter a guarda baixa em diversos momentos.
Apesar disso, há um fator interessante: Borralho nunca sofreu um knockdown no UFC e é muito difícil de ser acertado. Essa característica com certeza será um desafio para "The Killa Gorilla", que obrigatoriamente terá que mostrar algo diferente para surpreender seu rival.
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Quando o assunto é a luta agarrada, a vantagem é do brasileiro. Cannonier pode até ter usado mais o wrestling em seus últimos combates, mas Caio dificilmente fica por baixo (apenas 8,5% do tempo total de luta no UFC) e foi derrubado apenas três vezes em oito confrontos - se contarmos os dois no Dana White's Contender Series. O ex-desafiante, por sua vez, terá que fazer valer os 75% de defesa de quedas para impedir os double legs do brasileiro e evitar que ele entre em sua zona de conforto, passando a controlar as ações.
Caio Borralho golpeia Armen Petrosyan no UFC Vegas 58. (Foto por Chris Unger/Zuffa LLC)
Em meio a isso tudo, há uma vantagem clara para Cannonier: a experiência em lutas principais e a qualidade de adversários que enfrentou. Esta será a sexta vez que o norte-americano irá liderar um evento, enquanto é a primeira vez que o brasileiro será protagonista de um card. Além disso, Jared enfrentou os melhores da divisão durante sua carreira no UFC, enquanto Borralho teve apenas uma luta contra um ranqueado - Paul Craig - e terá no rival deste sábado seu maior desafio na carreira.
Também é importante frisar que há dúvidas sobre a atual condição de Cannonier. Ele está com 40 anos, teve lesões que o deixaram um bom tempo afastado do Octógono e vem de sua pior performance nos últimos tempos, sendo nocauteado por Nassourdine Imavov. O veterano sofreu muito com o volume de golpes e pressão imposta pelo francês e, para os fãs mais antigos, é válido dizer que só existiu um Randy Couture.
Saindo do "The Natural" norte-americano para o "The Natural" brasileiro, Caio não tem o perfil de striking de Imavov, então - talvez - isso seja uma preocupação a menos para Cannonier. Mesmo assim, o norte-americano terá que lidar com um adversário inteligente, em constante evolução, que sabe fazer ajustes durante a luta e que entra sempre no Octógono com planos de jogo bem traçados.
Jared Cannonier golpeia Marvin Vettori na luta principal do UFC Vegas 75. (Foto por Chris Unger/Zuffa LLC)
Para aqueles que levam para o lado "místico", deixo ainda uma curiosidade: Cannonier está 3-0 em lutas que fez no UFC Apex e já lutou em dois eventos que tiveram finais de TUF, saindo vitorioso em ambos. Será que Borralho irá quebrar esse "tabu"?
Por fim, alguns leitores já me disseram que sentem falta que eu dê um palpite no final da análise. Então, para satisfazer esse desejo, deixo abaixo meu parecer:
Será um lutão! E você não pode perder nenhum momento dele lá no UFC Fight Pass.
O UFC Vegas 96: Cannonier x Borralho foi um evento realizado dia 24 de agosto de 2024. Confira aqui a cobertura completa e reveja todas as lutas no UFC Fight Pass.