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Muito prazer, Erick Silva

O carioca Denis Martins acompanha o esporte desde os anos 1980 e traz histórias, causos e contos do MMA


Conhecer bem seu próximo adversário, ainda mais diante da grandeza do Ultimate Fighting Champioship, é uma tarefa fácil hoje em dia.

Todas as lutas preliminares do UFC são exibidas e a promoção feita sobre os atletas estreantes ou aqueles que fizeram menos de um punhado de combates no octógono é enorme, facilitando a aquisição de material para estudo de tendências e dos pontos fortes e fracos do oponente. E, obviamente, a evolução de câmeras e da própria internet ajudaram muito na captura e divulgação de vídeos.

Entretanto, se voltarmos alguns anos, mais precisamente em janeiro de 2006, e olharmos para o cenário nacional de MMA, estudar o adversário e bolar uma estratégia para o combate não era tão simples, principalmente se você fosse enfrentar o astro brasileiro Erick Silva, em um evento no Espírito Santo. Claro, ele não tinha tanta experiência e nem a notoriedade de hoje em dia, porém o potencial já corria em suas veias e enfrentá-lo sem uma base do que estava por vir poderia ser crucial para determinar o resultado.

Erick havia feito sua estreia no MMA profissional sete meses antes, na primeira edição do show, finalizando com um mata-leão em pouco mais de dois minutos de confronto, e como não era de praxe disponibilizarem vídeos de lutas online, e com suas participações em competições da arte suave, a impressão era que o meio-médio tinha apenas o Jiu-jitsu como arma principal. Afinal, aos 22 anos e indo para sua segunda luta, era pouco provável que o atleta teria um arsenal que fosse além das técnicas de solo.

E é aí que a armadilha está pronta para entrar em ação.

Com essa visão, a equipe do adversário de Erick tinha na cabeça uma estratégia que custou muito caro.

O carioca Julian Jabba, oponente naquela oportunidade, ainda não tinha vencido no MMA, mas suas quatro lutas (2 derrotas e 2 empates) foram contra nomes fortes no cenário local, então, no fator experiência, ele já superava Erick.
O que se ouvia nos corredores do hotel onde foi realizada a pesagem era que o lutador que enfrentaria Erick tinha um plano: colocar pressão na pesagem e no dia do evento ditar o ritmo em pé usando o muay thai.

Esse garoto vai ver

 Logo no primeiro quesito a estratégia se mostrou um tanto furada. Quando Jabba buscou intimidar na encarada pós-pesagem o capixaba não se retraiu e a mesma ficou intensa.
 Naquele momento um detalhe passou desapercebido pela maioria, e ele talvez pudesse ter alterado o ritmo do duelo Erick vs. Jabba. Um dos técnicos do atual meio-médio do UFC, era o grão mestre de muay thai, Narany, deixando indícios que Erick possuía pelo menos uma noção de luta em pé. Mas tomado pela adrenalina que a encarada proporcionou, Jabba e sua equipe não devem ter prestado atenção nisso. Só foi possível escutar: “esse garoto vai ver”, logo após a encarada.
 Durante o combate ficou nítido que Jabba iria buscar a trocação, desferindo seus chutes, mas recebendo o troco logo na sequência com uma boa combinação de socos e chute na perna desferidos por Erick. Um sinal claro, o garoto sabe trocar.
Erick buscou uma queda, defendeu a guilhotina, aplicou um bate-estaca e novamente deixou evidente que queria mostrar o poder de seus golpes, levantando e aplicando chutes nas pernas. O duelo voltou em pé e não era possível saber se Jabba já tinha na cabeça que deveria tomar outro rumo, quando tentou levar para o solo, mas Erick rechaçou e deixou suas mãos fazerem o serviço ao desnortear e derrubar Jabba com uma esquerda aos 2:30 do assalto inicial.
Nas poucas entrevistas pós-luta que Erick concedeu ele afirmava que queria nocautear, pois tinha finalizado o primeiro compromisso e sua intenção era ser um lutador completo. O que se confirmou no decorrer dos anos, com o representante da Team Nogueira/X-Gym apresentando solidez na luta de solo e na trocação.
Se tivessem estudado Erick Silva o resultado seria diferente? Difícil responder, é um esporte e a imprevisibilidade faz parte do cotidiano dele. Mas apenas presumir, como fizeram, foi um grande erro, mesmo naquela época. Portanto, ter uma noção do que o adversário vai apresentar e bolar um planejamento em cima disso, junto com um bom camp, sempre foram artifícios que não devem ser desprezados.