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Blogs - Marcelo Alonso

O caldo engrossa no Top 10: Lições para Gillespie e Walker

Como esperado, o UFC 244, que comemorou 500 edições do UFC ao vivo, brindou o fã do MMA com altas doses de entretenimento. Mesmo com o anticlímax pela maneira como terminou a tão aguardada disputa pelo título de “maior casca-grossa” do esporte, que valeu o cinturão BMF para Masvidal na luta de três rounds contra Nate Diaz, o show, literalmente, valeu o ingresso. Seja para os fãs que lotaram as dependências do lendário Madison Square Garden em Nova York ou para os milhares que assistiram ao evento vivo pela TV no mundo todo.

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Thompson x Luque, Till x Gastelum, Anderson x Walker, Lee x Gillespie, Tavares x Shahbazyan, Jairzinho x Arlovski, Burgos x Amirkhani. Com tantas lutas incríveis e nocautes memoráveis, não deve ter sido nada fácil premiar os bônus da noite. Mas por tudo que vinha sendo esperado de Gregor Gillespie e Johnny Walker, não poderiam ser mais justas as escolhas de Corey Anderson e Kevin Lee como Performances da Noite. O show de trocação (e fair play) na luta entre Vicente Luque e Stephen Thompson também tornou mais que merecido o prêmio de Luta da Noite para ambos.

Tão engraçado quanto durarem suas vitórias

Curiosamente, o evento que vinha sendo celebrado pela valentia dos protagonistas terminou com uma lição que muitas vezes acaba sendo esquecida: um esporte duro e competitivo como o MMA tem níveis de corte e, definitivamente, entre os Top 10, o caldo engrossa. Depois de vitórias acachapantes sobre atletas ainda não ranqueados, o norte-americano Gregor Gillespie (peso-leve) e o brasileiro Johnny Walker (peso meio-pesado) já vinham sendo apontados como ameaças reais para os campeões Khabib Nurmagomedov e Jon Jones.

Mas ambos tiveram um choque de realidade ao serem confrontados com guardiões do Top 10. Vindo de seis vitórias consecutivas (cinco delas por nocaute ou finalização), o wrestler foi nocauteado em 2m47s por Kevin Lee, 10º colocado da divisão dos leves. Já Johnny Walker, que vinha dizendo que bateria devagar em Corey Anderson para mostrar que merecia a chance de ser o próximo a lutar pelo cinturão com Jon Jones, sofreu um nocaute técnico em pé a 2m07s e amargou sua primeira derrota no UFC, para o 7º colocado da divisão dos meio-pesados.

Brasil

Achei curioso Dana White dizer em entrevista após a luta que “não se brinca nesse esporte, principalmente no UFC”. Na realidade, Dana se referia à postura do brasileiro na luta. Mas a verdade é que Johnny Walker só vinha sendo considerado uma das maiores promessas do evento exatamente pelo seu jeito brincalhão de se promover, um híbrido de Fabrício Werdum com McGregor, que vinha atraindo a atenção da mídia, dos fãs e do próprio Dana, mas que no sábado, acabou aprendendo um princípio básico do mundo da luta: você é tão engraçado (ou divertido) quanto durarem suas vitórias. Trocando em miúdos, com a ajuda do sábio Sebastião Lacerda, vulgo “Mestre da Morte”: “A língua é o chicote do rabo”.

Seja o teorema de Lacerda, McGregor, Sonnen ou Isaac Newton, o fato é que, quanto mais você fala, maior a sua responsabilidade de entregar o que prometeu. Este, aliás, é o ônus de se escolher o caminho do “trash talking”, Mas que, indiscutivelmente, tem se mostrado extremamente válido para aqueles que tem conseguido entregar e, consequentemente, enriquecer neste esporte.

Para se ter uma noção do peso do ônus, basta comparar as citações nas redes sociais às derrotas de Gregor Gillespie, que optou por ter uma postura esportiva e mais respeitadora com relação aos oponentes, e Johnny Walker, que mereceu menção de Dana White, milhares de fãs e até do campeão Jon Jones: “Já era meu presente de Natal”.

Obviamente, as derrotas não significam o fim da linha nem para Gillespie (32 anos), muito menos para Walker (27 anos). O que vai definir o futuro de ambos é a maneira que irão lidar com ela. Logo após o evento, o brasileiro fez um post sorridente no Instagram mostrando que aprendeu a lição mais importante. “Cabeça de campeão. Nunca é uma derrota, é sempre um aprendizado”. A questão agora é como isso se refletirá de maneira prática em seus treinamentos. Johnny é indiscutivelmente talentoso e tem um potencial físico acima da média (vide seus números nos testes no Instituto de Performance do UFC), mas precisa ter a humildade de olhar a sua volta e entender como trabalham os grandes campeões. Esta postura errática de fazer um camp em três equipes (e países) diferentes e representar uma nação a cada edição do UFC não vai levá-lo a lugar algum. Além do mais, Walker precisa escolher entre dois caminhos para se desenvolver como lutador: ou treina numa grande equipe (como fazem quase todos os campeões do UFC) ou investe pesado para fazer seu próprio camp (como fazem Demian Maia, Rafael dos Anjos, Paulo Borrachinha, Donald Cerrone e tantos outros).

Se entender que para desenvolver todo seu potencial precisará buscar sparrings que o levem a seu limite, o brasileiro certamente poderá continuar a adotar a postura que o fez conhecido e tem atraído tanto a atenção dos fãs e da mídia; mas caso decida manter tudo como está, correrá o risco de conhecer o lado mais cruel deste esporte, passando rapidamente de promessa a bobalhão. Fica a torcida para que realmente aprenda com a derrota, consiga desenvolver todo o seu potencial e mostre para Dana White, assim como fez Fabrício Werdum, que um campeão do UFC pode, sim, brincar e ter o humor como seu diferencial; basta ter seriedade nos treinos e nas lutas.

Shahbazyan e Darren Till: Duas pedreiras para os médios

Se os super celebrados Gillespie e Walker foram freados por dois porteiros de suas divisões, Darren Till e Edmen Shahbazyan entraram com o pé na porta no Top 10 da divisão dos médios. Protegido de Ronda Rousey, que vinha voando abaixo dos radares na divisão dos médios, Edmen Shahbazyan surpreendeu muita gente aplicando um nocaute espetacular em 2m27s no tarimbado Brad Tavares, 11º do ranking. Vale notar que o havaiano vinha de uma luta de cinco rounds com o atual campeão Israel Adesanya. Ou seja, vale ficar de olho nesse garoto de apenas 21 anos, que graças a esta vitória deverá adentrar na elite de uma das divisões mais disputadas do UFC, passando Antônio Cara de Sapato (13º) e se aproximando de outros dois brasileiros: Ronaldo Jacaré (7º) e Paulo Borrachinha (2º).

Quem também chegou como zebra e adentrou a elite da divisão com o pé na porta foi o inglês Darren Till.  Após sofrer duas derrotas seguidas entre os meio-médios, Till resolveu se testar na divisão de cima, já começando pelo duríssimo Kelvin Gastelum, que, também vinha de uma guerra de cinco rounds com o atual campeão Adesanya. Pois o inglês surpreendeu o favorito e venceu dois dos três rounds. Sabendo que Borrachinha só volta em abril e Yoel Romero luta para conseguir furar a fila do brasileiro e enfrentar o campeão, Till já chegou à nova divisão pedindo o title-shot. Pela exibição de sábado contra o homem que entregou a luta mais dura da carreira de Israel Adesanya, Till mostrou que pode, sim, ser competitivo. A pergunta é: seria justo dar-lhe o title-shot já na segunda luta numa divisão tão competitiva e com tantas estrelas em ascensão? Cabe agora ao UFC decidir se vale a pena colocar Yoel Romero, Jared Cannonier ou Darren Till para enfrentar o campeão no primeiro bimestre e arriscar a realização da luta mais aguardada da divisão (Borrachinha x Adesanya) ou esperar mais dois meses e realizar em abril este clássico que carrega o título de maior rivalidade do UFC na atualidade.

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