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Blogs - Marcelo Alonso

O maior desafio de Conor McGregor

Em 2003, um parceiro de treinos e empresário me pediu que o apresentasse a Wallid Ismail.

Finalizador e extremamente talentoso, o faixa-preta de jiu-jítsu achou que seria hora de se testar numa luta real e queria estrear no Jungle Fight. Lembro que quando liguei para Wallid, sua primeira pergunta foi: “O que ele faz na vida?”. Quando mencionei, entre outras coisas, que tinha um restaurante, a resposta foi imediata: “Tá de brincadeira? Bota uma coisa na sua cabeça: para lutar MMA, não pode ter plano B. Este é o esporte mais duro que existe. Só se chega ao topo quem não tem outra alternativa”.

Passados 15 anos, sou obrigado a reconhecer que o “Teorema Wallidiano” faz todo sentido.

Veja também: "Copo meio cheio" do Brasil no UFC em 2019

Tendo acompanhado de perto a dura rotina de treinamentos dos principais campeões do MMA nacional no início da era de ouro do PRIDE e, posteriormente, no UFC, tenho que reconhecer que todos tinham a luta como único foco. E, além do talento, o que os fez perseverar naquela duríssima rotina diária de treinos, muitas vezes contundidos, deixando em segundo plano o instinto humano de auto-preservação foi a gana de vencer, aliada obviamente ao talento e todo o histórico de dificuldades pregressas.

Vi Minotauro lutar com Dan Henderson no PRIDE 24 com 39ºc de febre; Wanderlei vencer Yoshida e nocautear Rampage Jackson na mesma noite faturando o GP do PRIDE em 2003 com parte do bíceps rompido e uma bursite crônica no cotovelo; Anderson finalizando Sonnen após apanhar 4 rounds com a costela quebrada.

A história de conquistas de Anderson Silva e GSP no UFC, aliás, são excelentes exemplos. Após romperem a barreira dos 5 milhões de dólares e baterem os principais recordes de defesa de cinturão de suas divisões, ambos claramente tiraram o pé do acelerador. Algo absolutamente natural para atletas que levaram o corpo ao limite por tanto tempo. GSP preferiu abrir mão do cinturão e Anderson reduziu a carga de treinos até perder o título para Weidman.

A revanche com Nurmagomedov

Exemplos como Anderson e GSP me levavam a ter certeza de que dificilmente Conor McGregor voltaria a ativa após faturar 100 milhões de dólares em sua luta de boxe com Floyd Mayweather e mais de 20 milhões nos três recordes de pay-per-view que garantiu ao UFC (a luta com Khabib e as duas contra Nate).

Com uma vida de luxo garantida para muitas gerações do clã McGregor, não conseguia ver o irlandês encarando novamente a dura rotina de treinos de um profissional da elite do UFC. Pelo menos não com o objetivo de fazer a revanche com Khabib e reconquistar o cinturão dos leves do maior evento do mundo.

Mas eis que esta semana o irlandês surpreendeu a todo o mundo das lutas ao revelar seu planejamento de fazer três lutas em 2020 (algo que ele não fazia desde 2016), já confirmando seu retorno ao Octógono para o dia 18 de janeiro, no UFC 246 (em Las Vegas), contra Donald Cerrone, na divisão dos meio-médios. Segundo McGregor, sua ideia seria lutar com Cerrone e Masvidal (ou Nate Diaz) e ao final do ano reaver o cinturão dos leves enfrentando Khabib Nurmagomedov na Rússia.

Um plano mais que ambicioso que certamente escreveria mais uma vez seu nome na história. Depois de ser o primeiro a conquistar dois cinturões do UFC simultaneamente e ser o único lutador de MMA a romper a barreira de 100 milhões de dólares de faturamento, Conor passaria a ser o primeiro milionário a conseguir vencer o instinto de auto-preservação inerente ao ser humano, derrubando o teorema Wallidiano.

Um detalhe curioso na personalidade de Conor McGregor que ficou patente em sua segunda luta com Nate Diaz é seu espírito competitivo. Cinco meses após ser finalizado, o irlandês voltou muito melhor. Sua gana de dar o troco ao algoz o levou a treinar como nunca, desvendando o jogo de Nate e devolvendo a derrota.

Mas ao contrário da luta com Nate, onde pequenos ajustes táticos em seu boxe poderiam definir uma vitória na revanche, Conor sabe que contra o russo precisará de muitas horas de treino duro para conseguir neutralizar seu jogo de quedas. Por isso traçou um plano a longo prazo que o permita aprimorar seu wrestling defensivo, ao mesmo tempo em que treina para duas lutas contra trocadores extremamente populares, que tem potencial para ajudá-lo a tentar bater seus próprios recordes de pay-per-view.

E por falar no espírito competitivo do irlandês, fiz uma live no PVT há algumas semanas com Roan “Jucão” Carneiro, ex-lutador do UFC e faixa-preta da escola Carlson Gracie, que recebeu Conor em sua academia (ATT Atlanta) alguns meses depois de sua derrota para Khabib e ficou impressionado com o que viu. “Estava com um gás absurdo. Fez cinco rounds vindo para dentro o tempo todo. Claramente não tinha parado de treinar e já estava se preocupando em melhorar sua defesa de quedas para a revanche com o Khabib. Definitivamente, o Conor é um cara diferenciado e virá diferente na segunda luta”, apostou Jucão.

Se me pedissem para apostar hoje, diria que Conor vence Cerrone, mas não passa por Masvidal. Mas confesso que também não acreditava que venceria Chad Mendes, José Aldo e Eddie Alvarez, e ele me fez morder a línguas nas três oportunidades. Também não esperava que o irlandês passasse do 2º round numa luta de boxe com Floyd Maywheather e ele chegou ao 10º. Podia apostar que ele não chegaria ao final do 1º round com Khabib Nurmagomedov e ele só foi finalizado ao final do 4º (3m03s). Diante de tudo o que já conquistou e de todas as barreiras que já transpôs neste esporte, não me surpreenderei se Conor McGregor me fizer morder a língua mais uma vez, agora enterrando o “teorema Wallidiano”.

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