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Blogs - Marcelo Alonso

O que esperar de Adesanya x Borrachinha?

A imprevisibilidade é sem dúvida um dos fatores que fazem do MMA um esporte único. E como é bom perder o sono por conta de uma surpresa, seja ela em consequência de um resultado inesperado ou por um nocaute histórico, como no último sábado.

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Depois de rever as principais lutas de Adesanya e Whittaker, tinha convicção, como escrevi aqui no blog na última sexta, que a luta principal do UFC 243 seria um “xadrez da distância” definida por pontos. Apesar da desvantagem na envergadura, acreditava que o campeão usaria sua explosão, velocidade e wrestling para surpreender o nigeriano round a round. Mas Adesanya, mais uma vez, mostrou que está num outro patamar, aplicando um xeque-mate no australiano ainda no 2º round, num lance onde esbanjou controle de distância, timing e precisão ao contra-atacar, com um cruzado certeiro, andando para trás e nocauteando o campeão.

Foi um nocaute arrasador que rendeu a Israel Adesanya o cinturão do peso-médio. Veja como isso aconteceu e como o novo campeão avalia a sua performance na luta principal do UFC 243


Uma atuação antológica, que mereceu o bônus de Performance da Noite e foi testemunhada in loco pelo maior público da história do UFC, 57.127 pagantes lotaram a Marvel Arena em Melbourne na Austrália.

Invicto com dezoito lutas (sendo 14 por nocaute) em apenas oito anos de MMA, tudo indica que em breve o novo campeão dos médios do UFC passará a disputar com Khabib Nurmagomedov (campeão peso-leve) e Jon Jones (campeão meio-pesado) o status de maior estrela do evento na atualidade.

Postura de campeão

Quem acompanhou os seis episódios do UFC 243: Embedded sabe do que estou falando. Além de falar bem e ter um carisma acima da média, Adesanya tem o maior prazer em tratar bem aos fãs e falar com jornalistas. Isto sem falar nas performances na entrada do Octógono (o que foi aquela dancinha...).

Um outro aspecto diferenciado do nigeriano é o fato de não ser um trash talker contumaz, como Conor McGregor e Chael Sonnen. Quando respeita os oponentes, como Anderson e Whittaker, não faz provocações sem sentido por mero marketing, mas quando não gosta, como Derek Brunson e Paulo Borrachinha, é capaz de tiradas geniais que, obviamente ajudam a alavancar as vendas de pay per view.

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Um perfil muito parecido, aliás, com o do nosso Paulo “Borrachinha” Costa, que, assim como o nigeriano, agrada aos patrões não só pelo carisma, mas por entregar o que promete.

Invicto com 11 nocautes em suas 13 vitórias, Borrachinha deu show nas cinco lutas que fez no UFC. Venceu quatro por nocaute técnico e apenas uma na decisão, naquela guerra de cinco rounds contra o cubano Yoel Romero que o credenciou para enfrentar o vencedor de Whittaker e Adesanya.

“Magrelo ou Animal Inflado”, quem ficará com a cinta?

Existe receita melhor que uma rivalidade genuína para alavancar uma luta? Se existe, ainda não foi descoberta. “Não gosto dele. Vou assassinar este magrelo”, disse Borrachinha para a imprensa nos bastidores do UFC 243. Pois logo após derrotar Whittaker, o nigeriano fez questão de responder ao rival. Primeiro escalando o Octógono e fazendo um gesto obsceno diretamente para ele, e na seqüência sendo ainda mais direto ao microfone. “Eu vou pegar um animal inflado. Paulo Borrachinha, eu vou acabar com você. Após nós lutarmos, ele vai parecer Ricky Martin. Acreditem em mim, eu vou acabar com esse cara”. O fogo cruzado entre Borrachinha e Adesanya jogou uma pá de cal imediatamente no sonho de Dana White de promover uma superluta entre categorias protagonizada por Jon Jones e o nigeriano, logo na sequência.

Mas adiar esta possibilidade e priorizar o andamento da divisão dos médios, que ficou tanto tempo parada com Michael Bisping, não será nenhum problema. Afinal de contas, na atual conjuntura do MMA, ter dois lutadores nocauteadores invictos extremamentes carismáticos que se odeiam de verdade é uma espécie de tempestade perfeita. Colocar qualquer um dos dois para fazer mais uma luta, seria um tiro no pé que não faria o menor sentido.

Depois de vencer Anderson Silva, Gastelum e nocautear Whittaker, Israel Adesanya obviamente passa a ser favorito contra qualquer peso-médio do mundo.

Mas há de se reconhecer que Borrachinha traz para este confronto uma ameaça que só Kelvin Gastelum apresentou nas 18 lutas que "The Last Stylebender" fez até agora no MMA, o poder de nocautear com apenas um golpe. Mesmo com uma desvantagem brutal na envergadura (21cm), Kelvin conseguiu vencer dois rounds e aplicar dois knockdowns no atual campeão, que só garantiu a vitória no 5º round. Coincidentemente, apesar de ser muito mais forte e explosivo que Gastelum, Borrachinha tem os mesmos 21cm de desvantagem na envergadura para o nigeriano.    

Por falar em controle de distância, o desfecho genial contra Whittaker talvez apague da memória dos fãs o fato de que o australiano vinha vencendo a luta até o momento do knockdown no último segundo do 1º round. Mas ao invés de voltar no 2º round cadenciando um pouco mais a luta e alternando tentativas de queda com sequências longas (golpeando cabeça e linha de cintura), Robert optou por voltar mais agressivo travando uma batalha de kickboxing contra o campeão do GP do Glory. Resultado: acabou pagando caro pela sua ansiedade e falta de bom senso tático.

Os exemplos de Gastelum e Whittaker certamente serão amplamente estudados pela equipe de Borrachinha. Com seu estilo extremamente agressivo, sempre buscando o nocaute verticalmente, “The Eraser” parece ter o encaixe tático perfeito para o nigeriano. Mas vale lembrar que se achava o mesmo de Yoel Romero, e mais uma vez o brasileiro surpreendeu.

E quem não lembra da capacidade de absorção de golpes acima da média mostrada por Borrachinha na luta com Uriah Hall, quando engoliu jabs por quase seis minutos, mas sem parar de caçar o oponente um segundo sequer, sempre conectando golpes e se preocupando em alternar entre cabeça e linha de cintura, até o jamaicano desmoronar?

Adesanya tem tido o enorme mérito de manter todos os seus oponentes lutando dentro de sua especialidade: o kickboxing. Os fatos mostram que se Borrachinha escolher este mesmo caminho, terá grandes chances de ser a 19ª vítima do nigeriano.

Então qual seria o caminho ideal para o brasileiro não cair na armadilha do campeão? Obviamente um striker explosivo e nocauteador como Paulo Costa não pode se transformar num wrestler em poucos meses, mas sendo faixa-preta de jiu-jítsu e tendo em seu corner um wrestler do patamar de Eric Albarracin, certamente valeria trabalhar uma tática que tirasse Adesanya de sua zona de conforto. Alternando o jogo de grade com dirty boxing (batendo muito na linha de cintura e cotoveladas), com quedas a partir do bodylock. Ou seja, tirando do campeão a prerrogativa de controlar a distância.

Mas conhecendo o estilo de Borrachinha, seria capaz de apostar que ele vai botar o coração na ponta da luva e partir pra dentro de Adesanya com tudo, como fez em todas as suas lutas.

Por enquanto, só nos resta elucubrar e aguardar que este confronto histórico seja logo confirmado pelo UFC.

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