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'O Werdum nem é tão engraçado assim'

O carioca Denis Martins acompanha o esporte desde os anos 1980 e traz histórias, causos e contos do MMA


Durante os anos dourados do MMA no Japão, a Terra do Sol Nascente, entre a década 1990 e o meio dos anos 2000, a imprensa e os canais de televisão do oriente médio sempre elaboravam algum tipo de projeto que incluía atletas de todos os continentes do mundo. Podia ser em livros de renomados fotógrafos ou documentários especiais nas principais academias, essa era uma espécie supra sumo das informações mais elaboradas dos lutadores. Naquele período o esporte ainda não era tão grande globalmente e nem a internet não possuía tanto material.
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Entretanto, essa espécie de globalização que jornalistas e diretores de documentários gostavam de fazer nunca teve um projeto tão audacioso como o Fighters' Data File. Uma obra que apresentava lutadores de quase todos os países do planeta, uma espécie de bíblia de perfis e fotos de atletas e, obviamente, o Brasil teria que fazer parte deste livro, pela sua rica e promissora história nos esportes de combate em geral.

No ano de 2003, tive a oportunidade de catalogar os brasileiros para esse livro. Aproveitando o ADCC em São Paulo e dois campeonatos mundiais de jiu-jitsu no Rio, a chance de completar quase todos os perfis e fotos era gigante. O questionário era simples e precisava apenas das informações básicas dos lutadores para que a bios de todos fossem divulgadas: peso, altura, idade, cartel de MMA, títulos na arte marcial e alguns poucos assuntos em geral.

Dois lutadores em especial eram o alvo do editor, os gigantes gaúchos Fabrício Werdum e Marcio Corleta, pupilos do condecorado mestre Sylvio Behring. Werdum já tinha três lutas de MMA, mas não era muito conhecido por isso, e sim por ser um promissor faixa preta que atuava nas divisões mais pesadas da arte suave e, obviamente, se tornaria campeão peso-pesado do UFC, doze anos depois.
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A semelhança entre Werdum e Corleta era somente a altura, fora isso, fisionomias completamente diferentes, e um é brincalhão e o outro mais sério. E mencionando só isso, atualmente, já sabemos quem é quem.

Se você não conhecesse bem, e alguém falasse “entreviste o gigante aluno do Behring”, ficava difícil saber quem seria esse, não é verdade?E foi aí que Werdum teve uma ligeira fama de não ser tão engraçado como falavam.Os atletas a serem entrevistados eram muitos, durante a competição de jiu-jitsu na cidade de Niterói, a Copa do Mundo, diante disso e da facilidade em conduzir as entrevistas, era só ler e gravar, pedimos para alguns assistentes novatos pegarem determinados atletas, e um deles, o mais desatencioso, ficou com a missão de entrevistar o Werdum. Detalhe, ele não sabia quem era, e quando dissemos, “é um altão perto do Behring lá fora”, ele virou em direção a saída, e quem estava ao lado do Behring? Ele mesmo, Marcio Corleta.
O assistente, mais tarde, disse que chegou todo animado para entrevistar o tal “Werdum”, só que o cara estava sério. Ele tentou brincar para descontrair em algumas perguntas óbvias, mas “Werdum” não dava muita bola e ia respondendo o mais rápido possível, afinal, estávamos no meio da Copa do Mundo de Jiu-jitsu e ele precisava se concentrar para as lutas. O papo, segundo o desavisado repórter, correu seco e sem muitas delongas e, enquanto isso, ele disse que imaginava, “como esse cara pode ser considerado hilário?”, sem saber quem estava entrevistando de verdade.
 

“como esse cara pode ser considerado hilário?”

O repórter frustrado disse que nem teve vontade de mandar um “boa sorte, ‘Werdum’”, porque a entrevista não saiu como ele queria e achava que o entrevistado não tinha ido com a cara dele. Quando chegamos perto, ele já estava tirando uma foto e o Corleta se afastando para a área de concentração da competição.
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Lembro como se fosse hoje, ele falando após a saída do Corleta, “o ‘Werdum’ nem é engraçado”, e isso me fez dar uma gargalhada imediata, pois na hora já sabia o que ele tinha feito. A gente desfez a confusão e isso virou uma grande chacota. Só não foi mais engraçada porque o repórter saiu das lutas e acabou sem a chance de entrevistar o verdadeiro “Vai Cavalo” e ouvir muitas de suas piadas.