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Blogs - Marcelo Alonso

A polêmica de Bate-Estaca: será que vale proibir?

Em um card recheado de lendas do esporte e onde Jéssica “Bate-Estaca” Andrade fechou a noite conquistando o terceiro cinturão brasileiro no UFC, nunca imaginaria começar esta semana pós-UFC 237 participando de vários debates calorosos nas mídias sociais sobre a necessidade de mudanças nas regras do esporte. Mas este é o nosso MMA, sempre surpreendente.

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Era natural que a cena da campeã Rose Namajunas apagando ao ser arremessada num bate-estaca aplicado pela brasileira chocasse a maioria dos fãs do esporte. Dentre os comentários mais frequentes, destacaria estes dois que na minha opinião valem debate. “Foi a vitória da força sobre a técnica!” e “Esta regra tem que ser banida imediatamente antes que alguém morra ou não seja capaz de sair andando do Octógono”.

Vamos lá. Toda luta de MMA é um jogo de xadrez onde cada lutador usa suas qualidades e ferramentas específicas para vencer. É bem verdade que muitas vezes os elementos surpresa acabam mudando os rumos do jogo. Definitivamente este não foi o caso da luta entre Jéssica e Rose. Não é necessário ser um profundo entendedor para saber que a campeã tentaria repetir exatamente o que fez Joanna Jedrejczyk, a única mulher que conseguiu neutralizar a força e explosão de Jessica Andrade nesta divisão. Ou seja, usar a envergadura para bater e não ser encurralada na grade, onde a brasileira costuma aplicar suas projeções de altíssima amplitude. Ora bolas, se os treinadores da campeã estavam cientes de que as quedas eram as principais armas da brasileira, era absolutamente essencial que Namajunas estivesse totalmente condicionada a abandonar as tentativas de finalização em caso de projeção.

O fato é que a norte-americana vinha executando seu plano tático com perfeição, dando a impressão de que, se a luta fosse até o 5º round, continuaria controlando a distância, vencendo com sobras. Rose ainda conseguiu se proteger bem nas duas primeiras projeções, mas não logrou êxito na terceira e acabou apagando naquele bate-estaca que calou a arena.

Uma cena que me remeteu imediatamente a luta entre Ricardo Arona e Quinton Rampage Jackson no Pride em 2004, onde o brasileiro vencia o combate com tranquilidade e foi nocauteado com um bate-estaca quando tentava encaixar um triângulo no americano. Arona errou por não abrir a guarda, assim como Rose errou por não abandonar a kimura, que a impediu de se defender da queda. Aliás, foi essa a argumentação usada por “Big” John McCarthy em seu Twitter ao ser questionado por um fã sobre o porquê de se permitir aquela “técnica criminosa”: “Quando a Rose ataca o armlock, ela tem a escolha de tentar soltá-lo para se defender da queda ou tentar continuar em busca da finalização e resistir à queda. O fato é que não há queda proibida quando o oponente ataca uma finalização”.

Confira o que disse a brasileira Jessica Andrade após nocautear Rose Namajunas e conquistar o cinturão do peso-palha feminino na luta principal do UFC 237.


Com relação ao argumento da “técnica contra força bruta”, isso faria sentido nos tempos do Vale-Tudo onde não havia categorias de peso e, muitas vezes, o mais pesado ainda estava aditivado com anabolizantes. Hoje, o esporte está num outro patamar. Tanto Jéssica quanto Namajunas foram amplamente testadas pela USADA. Os pontos fortes da brasileira - explosão, uma ótima técnica de quedas e poder de nocaute - encontraram do outro lado uma campeã também muito bem preparada, com uma vantagem brutal na envergadura, um boxe extremamente refinado em uma guarda perigosíssima. No final das contas, ambas jogaram dentro das regras do jogo e as armas da Jéssica foram superiores. E que fique claro mais uma vez que derrubar oponentes daquela maneira demanda muita técnica e habilidades, além da força. Não por acaso, em 26 anos de história e quase 500 eventos organizados, o UFC só tem em seu registro 11 lutas vencidas com bate-estacas (ou slams). Nenhuma delas tendo resultado em contusão grave no derrotado.

Mudança de regras

Outro tweet muito recorrente, o qual também acho que mereça ser debatido, abordava a necessidade de mudanças de regras para evitar que ocorra um acidente mais grave. Sou amplamente favorável a debates constantes sobre as regras do esporte. Aliás, não custa lembrar que o Vale-Tudo só começou a ser chamado de MMA, graças às modificações iniciadas a partir de problemas reais encontrados nas lutas. Graças a este processo evolutivo, foram abolidas cotoveladas na nuca, pisões, implantadas divisões de peso e tantas outras regras visando evitar lesões graves e preservar a saúde dos atletas.

No ano passado, mais uma série de pequenas modificações foram implementadas e, para o bem do esporte, tomara que este processo continue sendo constante e sempre debatido entre representantes de atletas, árbitros e comissões. Muita coisa, certamente, ainda pode ser aperfeiçoada visando a integridade do atleta, mas definitivamente não vejo com bons olhos a imposição de novas regras com relação a técnicas de queda. Sob pena de termos projeções permitidas em esportes olímpicos, como wrestling e judô, proibidas no MMA.

Ninguém está dizendo que não exista um risco inerente ao suplex do wrestling ou ao kataguruma do judô, mas quantas vezes vimos atletas destas modalidades saírem paraplégicos de Olímpiadas? E no MMA? A resposta é que atletas que praticam esta modalidade estão treinados não só para aplicá-las mas para cair também.

Sou favorável, por exemplo, à liberação da pedalada no rosto para quem está por baixo ou à proibição das cotoveladas para quem está por cima e acho que muitos outros pequenos detalhes podem tornar o esporte menos lesivo e mais dinâmico, mas definir amplitudes para quedas, significaria mexer num dos pilares do esporte. Por isso sou frontalmente contra.

A virada da nova geração: 6 a 5

Na última semana, dediquei o texto do blog para falar sobre o curioso placar dos oito confrontos entre gerações realizados nos 14 eventos do UFC em 2019. Até o UFC 237, os veteranos vinham vencendo por 5 a 3, ou 8 a 5 para aqueles que consideram a quilometragem (idade física) um fator mais importante que a idade cronológica.

Pois neste final de semana os “Leões Velhos” perderam todas para os novos, e o placar virou para 6 a 5.

Aos 42 anos de idade, Rogério Minotouro foi nocauteado ainda no 1º round por Ryan Spann, de 27; Anderson Silva (44) vinha disfarçando bem uma grave lesão no joelho fazendo um excelente 1º round contra Jared Cannonier até levar um chute exatamente na lesão e cair se contorcendo em dores. Mas sem dúvida alguma a maior surpresa do time dos “Leões Novos” veio da Argentina.

Com apenas 26 anos e nove lutas de MMA, Laureano Staropoli, que hoje treina na Chute Boxe, venceu dois dos três rounds contra o veteraníssimo Thiago Pitbull (36 lutas) e calou a torcida que lotou a Jeunesse Arena na Barra da Tijuca. José Aldo e BJ Penn, que só não entraram no placar por conta da pequena diferença de idade dos oponentes, também perderam por pontos e acabaram ajudando a carimbar este UFC Rio 10 como um dos piores eventos para a velha guarda já realizados no Brasil.

Mas como sabemos, ainda faltam sete meses para o ano terminar e certamente o UFC proporcionará aos fãs muitos outros clássicos entre gerações.

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