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Blogs - Marcelo Alonso

UFC Rio 1: Nocautes, emoção e a maior volta por cima de Minotauro

Esta semana o UFC anunciou o card completo da 10ª edição do evento na Cidade Maravilhosa e deu o pontapé inicial para a venda de ingressos.

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Pelo excelente casamento de lutas, esta 35ª edição do UFC no Brasil tem tudo para ser uma das melhores. Além da disputa de cinturão entre Jéssica Bate-Estaca e Rose Namajunas, teremos quatro lendas do esporte em ação: Anderson Silva (enfrentando Jared Cannonier), José Aldo (Alexander Volkanovski), Rogério Minotouro (Ryan Spann) e BJ Penn (Clay Guida). Para completar este card histórico nomes como Thiago Pitbull, Warlley Alves, Sérgio Moraes, Francisco Massaranduba, Bethe Correia, Talita Bernardo, Raoni Barcelos, Thiago Moisés e Diego Ferreira.

Mas sempre que o UFC volta ao Rio, não há como não lembrarmos da primeira edição, realizada no mesmo ginásio há quase oito anos. Quem foi à Jeunesse Arena, que na época ainda se chamava Arena HSBC, naquele histórico 27 de agosto de 2011, lembra bem daquela atmosfera única, que refletia a realização do sonho dos fãs que durante anos lutaram para que o Vale-Tudo, nascido aqui no Brasil e recriado com o nome de MMA, fosse reconhecido pela grande mídia.

E foi neste misto de celebração e volta por cima que os cariocas lotaram a arena e fizeram uma festa antológica. Como esquecer a arena de pé cantando a plenos pulmões a música tema do filme “Tropa de Elite” na entrada do policial do Bope, Paulo Thiago, ainda no card preliminar,  a vibração da galera ao ver Shogun nocautear Forrest Griffin na revanche da sua estreia no UFC. Dos gritos após os shows de Erick Silva, Thiago Tavares e Rousimar Toquinho, e o êxtase no Gran Finale após o nosso grande campeão, Anderson Silva, atropelar Yushin Okami em 2m33s mantendo o título dos médios no Brasil.

O drama de Minotauro

Mas para ficar marcada para sempre, qualquer história precisa ter alguma carga dramática. A verdade é que a volta do UFC ao Brasil não teria sido tão marcante se não houvesse um certo clima de tensão no ar com a volta de Rodrigo Minotauro enfrentando o americano Brendan Schaub, que vinha de uma sequência de quatro vitórias, sendo a última delas um nocaute sobre o croata Mirko Cro Cop.

Tendo acompanhado Rodrigo desde antes de estrear nos ringues, eu conhecia de perto sua resiliência e capacidade de superação, mas diante da gravidade do momento que vivia não conseguiu ver luz no fim do túnel. Definitivamente Minotauro era o calcanhar de Aquiles daquele card. E imaginar o maior peso-pesado do Brasil (único a conquistar os títulos do WEF, Rings, Pride e UFC), um personagem que tanto batalhou para que o esporte chegasse àquele patamar, terminar a carreira nocauteado diante de sua torcida na chegada do UFC no Brasil, era injusto demais.

Vindo de três cirurgias seríssimas (duas no quadril e uma no joelho) o baiano estava há cinco meses sem andar (entre cadeira de rodas e muletas). Segundo a programação de seu tratamento, deveria retornar aos treinos somente em outubro, mas diante da possibilidade de perder a estreia do UFC no Rio em agosto decidiu antecipar sua volta aos treinos para junho. Com o apoio de sua fisioterapeuta, Dra. Ângela Cortes e do preparador físico Rodrigo Babi,  Minotauro passou os meses de junho e julho fazendo seis horas por dia de tratamento intensivo e voltou a treinar capengando.

Eu estava na Team Nogueira no dia em que ele deixou as muletas na escada do Octógono, a pouco mais de 40 dias para o evento, e, sorrindo de emoção, fez a primeira manopla com o mestre Dórea. Lembro bem que me emocionei ao ver a indisfarçável felicidade do Rodrigo ao voltar a bater manoplas depois de seis meses parado, contrastando com o clima fúnebre dos colegas na academia. Todos aplaudiam e tentavam apoiar o ídolo e amigo, mas no fundo, sabiam que, diante do curtíssimo prazo, aquela movimentação limitada tinha tudo para ser a grande vilã da estreia do UFC no Rio.

E de fato isso ficou claro logo no início da luta quando o brasileiro tentou derrubar Schaub algumas vezes, sem êxito. Parecia questão de tempo até que o americano encaixasse um de seus cruzados, mas empurrado pela torcida, Minotauro continuou pressionando até encurralar o norte-americano, fintar um double leg e conectar um direto que nocauteou o oponente a pouco mais de três minutos de combate, levando ao delírio os 15 mil fãs que lotavam a arena. “ Ô o campeão voltou! O campeão voltou”. Uma explosão de emoção tomou conta do ginásio. Não foi por acaso que até o protagonista da noite, Anderson Silva, chorou copiosamente de emoção ao ver o amigo vibrando sentado no topo do Octógono, minutos antes de entrar pra lutar. Uns fãs se abraçavam, outros choravam, afinal de contas haviam testemunhado o final feliz de uma história que nem mesmo Sylvester Stallone havia cogitado em seus roteiros de “Rocky, o Lutador”.

Desde 1992 tive o privilégio de acompanhar os maiores campeões do MMA se consagrando internacionalmente, muitas vezes pagando a passagem do meu próprio bolso. Estava lá quando Wanderlei Silva e Rodrigo Minotauro conquistaram o cinturão do Pride no Japão; no dia que Vitor Belfort e Anderson Silva se consagraram no UFC, na noite em que Werdum finalizou o número um, Fedor, no Strikeforce, mas até hoje quando colegas me perguntam qual o evento mais emocionante que já cobri, não tenho dúvidas em apontar o UFC Rio 1, curiosamente realizado a 600 metros de minha casa. E faço esta escolha não só por toda esta história de superação de Minotauro, e da consagração de alguns dos nossos maiores ídolos em casa, mas principalmente pelo fato de este evento representar também uma vitória pessoal. Depois de 19 anos de muitas batalhas, finalmente consegui realizar o sonho de ver o nosso esporte reconhecido pelo público e pela mídia, no país que o criou.