Pular para o conteúdo principal
Entrevistas

Você sabia que o maior pesquisador em artes marciais do mundo é brasileiro?

O faixa-preta segundo dan de judô Emerson Franchini é professor da USP e cocriador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate

Se é da necessidade que nascem grande parte das boas ideias, é dela também que se originam muitas pesquisas relevantes. É assim que funciona com Emerson Franchini, professor da Universidade de São Paulo que é, segundo o site  ExpertScape, o maior pesquisador especialista em artes marciais do mundo.

O ExpertScape é um site que ranqueia, baseado em publicações em revistas e jornais científicos, os pesquisadores “top experts” de todas as especialidades biomédicas. Para o site, um expert é alguém que demonstra seu conhecimento e experiência em um assunto por meio desses artigos – assim, ele também compartilha dados e informações relevantes.

Emerson, que foi lutador de judô e é faixa-preta segundo dan na arte marcial, tem mais de 330 trabalhos publicados em revistas científicas, resultado de 22 anos dedicados à pesquisa. “A maior parte deles é nessa temática de esportes de combate”, afirma o expert.

“Além da experiência que tive como atleta da modalidade, atuo com a preparação de atletas de judô de nível olímpico desde 2004”, ele diz. “Os problemas que encontro no processo de organização do treinamento desses atletas servem de base para a elaboração de boa parte das pesquisas desenvolvidas.”

Ao lado do judoca Rafael Silva, Rafael Silva, quando ele conquistou o bronze no Olímpiada de Londres.

Além disso, afirma o professor, a leitura de trabalhos de outros pesquisadores, o contato e a discussão com eles e os projetos de seus orientandos de pós-graduação são fontes constantes de ideias.

Emerson está envolvido com esportes desde criança. “Joguei futsal e futebol entre os 7 e 13 anos de idade, em alguns clubes pequenos. Aos 13 anos, comecei a praticar judô. Curiosamente, no entanto, o fato de eu praticar judô não influenciou em minha decisão para ingressar no curso de educação física”, ele conta.

Segundo Emerson, sua curiosidade era saber como e por que as pessoas se exercitavam e de que forma esse processo poderia ser otimizado – por isso ele optou por essa faculdade. “Comecei a me interessar por pesquisa no último ano do curso de graduação, ao ter assistido a apresentação de um trabalho em um congresso que tratava de análises fisiológicas em atletas de judô. Somente então percebi que poderia fazer algo nesse sentido.”

Faixa-preta desde 1995, ele começou a competir ainda adolescente e passou então a praticar judô com foco em alto rendimento. “Contudo, cheguei apenas a nível estadual e o início do curso de graduação, aos 17 anos, tomou o tempo que tinha para treinar, pois as atividades eram em período integral e eu morava muito longe da USP.”

Em 2002, Emerson era professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie quando resolveu, com um amigo docente, Antenor Magno, criar o Grupo de Estudos e Pesquisas em Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate. “Quando ingressei como docente na USP, em 2006, continuei as atividades por lá.”

Com o judoca  Leandro Guilheiro, quando ele conquistou o bronze nos Jogos Olímpicos de Beijing

Ele trabalha principalmente com aspectos fisiológicos dos esportes de combate. “Mais especificamente com o desenvolvimento de testes físicos específicos para a avaliação de atletas dessas modalidades, bem como com processos de treinamento físico para esses atletas”, explica. Além dessas linhas centrais, os pesquisadores do grupo trabalham com análise técnica e tática de lutas e interagem com pesquisadores de outras universidades no desenvolvimento de pesquisas de diferentes naturezas com lutadores.

Atualmente, o grupo é composto por Emerson e dois alunos de mestrado. “Como a temática ou o rigor com o qual gostaria de tratá-la não atraem um grande número de pessoas, tenho desenvolvido a maior parte dos meus projetos de pesquisa com pesquisadores da UFSC, UFMG e de universidades do exterior, bem como colaborado com os projetos desses pesquisadores”, revela o especialista.

Emerson tem apreço especial por trabalhos que desenvolveu ainda no início de sua carreira, quando trabalhou com respostas fisiológicas a lutas de judô disputadas por atletas de diferentes faixas etárias – ele constatou, entre outras coisas, que não havia diferença no pico de lactato produzido depois das lutas entre os atletas mais jovens e os mais velhos (nosso organismo produz lactato após a queima da glicose para o fornecimento de energia).

Além disso, o pesquisador destaca as publicações que resultaram de seu doutorado, quando trabalhou com processos de recuperação entre as lutas de judô, com estudos conduzidos entre 1999 e 2001 e publicados no Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, em 2003, e no European Journal of Applied Physiology, em 2009.

O pesquisador acredita que, do ponto de vista do impacto científico e da potencial utilização pelos profissionais que atuam com atletas, são interessantes as revisões que ele publicou na Sports Medicine sobre judô, caratê, taekwondo e boxe – em que provê, inclusive, recomendações práticas para treinamento.

O grupo de estudos tem publicações também sobre artes marciais mistas, além de algumas ideias que estão engavetadas. “Temos alguns trabalhos sobre aptidão física de lutadores de MMA, sobre análise de ações e suas durações durante as lutas e sobre o processo de perda de peso, que podem contribuir para a elaboração do treinamento”, explica.

Segundo o especialista, a parte mais complicada de seu processo de pesquisa é a seleção de voluntários e a coleta de dados. “É difícil ter acesso a atletas de bom nível que queiram participar dos estudos”, afirma.

Emerson atuou na organização da preparação física de judocas que participaram dos Jogos Olímpicos de Atenas (Alexandre Lee), Beijing (Leandro Guilheiro), Londres (Leandro Guilheiro, Tiago Camilo e Rafael Silva) e Rio (Rafael Silva). Além disso, foi membro da comissão técnica do judô nos Jogos de Londres. “Nas três últimas edições, os atletas com quem trabalhei conquistaram medalhas: Guilheiro em Beijing, Rafael em Londres e Rio”, ele conta.

Em mundiais, ele organizou o treino de atletas de judô desde 2005, com um hiato entre 2013 e 2014. “Nesse período, o Guilheiro conquistou uma prata e um bronze e o Rafael, uma medalha de bronze. Acredito que esses possam ser exemplos de transferência das pesquisas para a organização do treinamento de atletas de alto nível”, afirma. As duas academias (a da universidade e a do tatame) só têm a ganhar.