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Blogs - Marcelo Alonso

17 brasileiros e 2 chances de título

O jornalista Marcelo Alonso oferece um panorama de todos os duelos do evento deste sábado (2).

No próximo sábado Fortaleza recebe mais uma edição do UFC com um card de altíssimo nível, que terá a participação de 17 brasileiros. Dentre os quatro “confrontos nacionais” estão as duas lutas principais, nas quais os vitoriosos deverão ter a chance de lutar pelo cinturão na sequência.

No evento co-principal, Renato Moicano, quarto do ranking dos penas, enfrenta José Aldo, atualmente em segundo lugar no ranking dos penas. Uma luta que deverá definir o próximo desafiante ao título, uma vez que o campeão, Max Holloway, confirmou que pretende subir para o peso-leve.

Apesar de ter sido responsável pela vitória mais emocionante do ano de 2018, quando levou muitos fãs às lágrimas arrebatados por sua emoção após o nocaute sobre Jeremy Stephens, José Aldo tem deixado claro seu desejo de fazer as três últimas lutas do contrato e se aposentar. Se cumprir o prometido, Moicano seria o antepenúltimo desafio da carreira do amazonense (as outras duas seriam nas próximas edições do UFC no Brasil em 2019).

Curiosamente, apesar de ter mais que o dobro do número de lutas (31 x 15), Aldo tem apenas três anos a mais que o brasiliense, que foi formado faixa-preta pelo mestre Ataíde Júnior e hoje treina na American Top Team na Flórida.

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Além de estar mais ativo, Moicano tem cinco centímetros de vantagem na envergadura (1,77m x 1,82m) e certamente tem treinado muito para usar esta vantagem contragolpeando com jabs em cima das investidas do ex-campeão. O fato de ter feito praticamente três camps seguidos contra oponentes com características semelhantes ao Aldo (Stephens, Kattar e Swanson), ou seja, strikers com poder de nocaute que o obrigaram a se movimentar muito e adotar uma postura tática de controle de distância com vistas a contragolpear as tentativas de nocaute, também deve ser considerado como uma vantagem importantes na preparação de Moicano para este confronto.

Mas se por um lado Moicano chega como favorito pela maneira tática e cerebral que vem neutralizando seus oponentes, o maior peso-pena da história traz experiência, velocidade e poder de nocaute (foram 16 em 27 vitórias, contra nenhum de Moicano). E ao contrário das suas últimas lutas contra os nocauteadores Max Holloway e Jeremy Stephens, onde deveria, pelo menos no papel, buscar uma luta tática evitando a trocação (em ambos os casos não seguiu o plano tático e foi para o tudo ou nada), contra Renato, Aldo já deixou claro que deve buscar a luta franca perseguindo o nocaute. Se conseguir cortar ângulos, encurralar o atleta da ATT e conectar seu direto no rosto ou um upper no fígado, como fez com Stephens, Aldo pode definir a luta até o segundo round, mas caso o combate chegue até o fim, o mais provável é que o brasiliense consiga a vitória na decisão.

Assunção x Moraes

Menos de dois anos depois de estrear no UFC em casa, no Rio de Janeiro, perdendo em decisão dividida para o experiente Raphael Assunção, o friburguense Marlon Moraes volta a enfrentar o compatriota, agora numa luta de cinco rounds que poderá definir o próximo oponente do campeão, TJ Dillashaw. Assim como no primeiro combate, este tem tudo para ser mais uma guerra tática entre o faixa-preta de jiu-jítsu e carateca Raphael Assunção e o especialista em muay thai e também faixa-preta de jiu-jítsu Marlon Moraes.

Considerado um dos atletas mais experientes da divisão, aos 36 anos, Raphael tem 32 lutas e 27 vitórias e conhece como poucos os atalhos do Octógono. Não por acaso, contabiliza 11 vitórias em 13 lutas no UFC. O pernambucano deverá contar ainda com o apoio dos vizinhos cearenses, além de uma carreata de amigos e familiares que virão de Recife só para torcer por ele. Apesar de não ter um estilo bonito, o faixa-preta de caratê é extremamente eficiente contra oponentes agressivos que busquem a luta, como Marlon.

Neste segundo confronto, porém, Marlon Moraes não terá mais a pressão da estreia. E o fato de estar vindo motivado por dois nocautes no primeiro round sobre os duríssimos Jimmie Rivera e Aljamain Sterling, deverá levá-lo a ser bem mais ofensivo que no primeiro confronto, até por saber que uma vitória simples praticamente lhe carimbaria um confronto inédito com o campeão TJ Dillashaw.

Vale lembrar que Pedro Munhoz (nono do ranking) corre por fora nesta disputa pelo title-shot, uma vez que já tem luta marcada contra o número um do ranking, Cody Garbrandt, no dia 2 de março (UFC 235). Se conseguir uma vitória clara (nocaute ou finalização) e a luta entre Assunção e Moraes for tão parelha quanto a primeira, Munhoz poderá furar a fila pelo cinturão. Como Assunção e Garbrandt já lutaram duas vezes com o campeão, precisariam mostrar algo muito especial para convencer o UFC de realizar uma trilogia. Não custa lembrar ainda que existe a possibilidade real de TJ Dillashaw fazer uma revanche imediata contra Henry Cejudo, agora valendo o título dos galos. Se Dana White optar por esta possibilidade, faria sentido o vencedor de Marlon e Assunção fazer mais uma luta contra o vencedor de Munhoz e Garbrandt, antes de lutar pelo título.

Demian e Do Bronx na eterna busca pelo habitat natural

O público cearense também terá o prazer de ver em ação dois dos maiores finalizadores da história do UFC: Charles do Bronx (12) e Demian Maia (9). Curiosamente, ambos terão pela frente dois excelentes strikers, que além de uma boa técnica de defesas de queda, vêm de sequências impressionantes de vitórias.

O sueco David Teymur, oponente de Charles, tem cinco vitórias em cinco lutas no UFC, superando strikers, como Drakkar Klose e grapplers como Lando Vanata e Nik Lentz. Com uma boa defesa de quedas e um excelente footwork, Teymur tem dificultado a vida de todos que tentam levá-lo ao solo. Mas o fato é que nunca pegou nenhum especialista como Charles Oliveira, único lutador na história do UFC a superar o recorde de finalizações de Royce Gracie (10). O brasileiro também tem impressionado por sua excelente adaptação ao peso-leve, tendo conseguido quatro vitórias (todas por finalização) nas cinco lutas que fez na nova divisão. O que mais tem chamado a atenção nas performances de Charles é a sua evolução em pé. O atleta da Chute Boxe tem usado muito bem sua envergadura, combinando ótimas sequências de chutes e socos para encurralar os oponentes na grade e derrubá-los, uma postura que certamente obrigará o sueco a vir mais conservador, podendo mudar os rumos da luta. Mas a julgar pelo nível dos últimos grapplers que venceu (Lentz e Vannata), que foram totalmente frustrados em todas as tentativas de queda, o sueco deverá vir com uma estratégia de manter a luta em pé, da média para a longa, contragolpeando o paulista e dificultando suas tentativas de quedas, buscando vencer por pontos.

Depois de ser derrotado por pontos pelos três melhores wrestlers da divisão (Woodley, Usman e Colby) num período de 10 meses, Demian Maia volta ao octógono para enfrentar um striker que tem se destacado no cenário dos meio-médios. Faixa-preta de caratê, Lyman Good tem mostrado um ótimo wrestling defensivo, vindo de duas vitórias (ambas por nocaute) em três lutas no UFC. Sua única derrota foi em decisão dividida para o brasileiro Elizeu Capoeira. Com uma boa técnica na grade, sempre contragolpeando com joelhadas e uppers, Lyman nocauteou, em sua última luta, o excelente faixa-preta de jiu-jítsu Ben Saunders ainda no primeiro round.

Mas como todo striker que luta com Demian Maia, o atleta da Tiger Schulmann certamente virá bem mais conservador do que de costume. De seu lado, Demian vem de três casamentos horríveis para o seu jogo e certamente deve estar animado para voltar a lutar dentro de suas características, impondo aquela boa e velha técnica de “mochilar” oponentes a partir da grade e finalizar. Mas se conseguir mapear o jogo do brasileiro e bloquear seus single legs e tentativas de queda a partir da grade, Lyman também tem boas chances de vencer a luta por decisão ou nocaute técnico.

Assim como na luta entre Bronx e Teymur, quem conseguir levar, ou manter, a luta em sua zona de conforto, sairá vencedor do combate.

Johnny Walker, a nova esperança dos meio-pesados

Depois da excelente exibição na estreia contra Khalil Rountree, quando conseguiu um belo nocaute com cotoveladas do clinche, o carioca Johnny Walker (1,98m), revelado na primeira edição brasileira do Contender Series, terá a chance de provar que é mesmo um dos grandes nomes da nova geração que chega para renovar o plantel de talentos do MMA nacional no UFC.

Desta vez, entretanto, Walker não terá tanta vantagem na envergadura, uma vez que enfrentará o Justin Ledet (1,93m). Após três vitórias seguidas entre os pesos-pesados, Ledet decidiu descer de categoria em sua última luta e acabou perdendo por pontos para o austríaco Aleksandar Rakic. Com um bom background no wrestling, tendo inclusive mostrado boas transições no chão contra Mark Godbeer, Ledet pode levar vantagem caso consiga levar a luta para o solo. Mas pela excelente movimentação do brasileiro, me arrisco a apostar que esta luta transcorrerá em pé, tendo tudo para ser uma das melhores da noite.

Brasil x Rússia: dois clássicos

Com os americanos se isolando na posição de maior potência do MMA atualmente (com campeões em sete das 12 categorias do UFC), Brasil e Rússia têm se enfrentado com uma frequência cada vez maior pelo posto de segunda potência do esporte. No UFC Fortaleza não seria diferente. Lá teremos dois clássicos entre tops dos dois países. Na divisão dos galos, Ricardo Carcacinha colocará sua invencibilidade de três lutas no UFC em jogo contra o russo Said Nurmagomedov, primo do campeão dos leves, Khabib. Campeão peso-mosca do WFCA, Said estreou no UFC em julho vencendo Justin Scoggins na decisão e decidiu subir para os galos onde será recepcionado por Carcacinha. Curiosamente ambos têm 13 lutas e 12 vitórias e lutam de maneira bem similar: sempre em busca do nocaute ou finalização. Olho nessa luta. Tem todos os ingredientes para levar bônus.

Na divisão dos moscas, Rogério Bontorin, um dos grandes destaques do Contender Series Brasil, enfrenta o duríssimo Magomed Bibulatov, colecionador de títulos nos eventos WSOF, WFCA e ACB. Curiosamente ambos também têm o mesmo currículo (14 vitórias e uma derrota). O diferencial aqui deverá ser o nível da competição no mercado russo.

ATT terá cinco em Fortaleza

Este evento terá ainda farta participação de atletas da maior equipe de MMA do mundo, a American Top Team. Além de Renato Moicano, a equipe da Flórida contará com a participação de mais quatro integrantes neste card: Thiago Pitbull, Mara Romero Borella, Junior Albini e Markus Maluko.

Natural de Fortaleza, o veteraníssimo Thiago Pitbull certamente contará com o apoio de sua torcida no clássico de strikers contra o americano Max Griffin. Apesar de estar vindo de uma sequência de quatro derrotas em cinco lutas, Pitbull tem se mantido competitivo, entregando verdadeiras guerras contra alguns dos oponentes mais duros da divisão. Exatamente da mesma maneira que seu oponente, Max Griffin. Apesar de também vir de um momento instável na carreira (três derrotas em cinco lutas), Max vem de duas guerras históricas (Mike Perry e Curtis Millender) que levantaram a torcida. Com a agressividade e o bom nível de kickboxing que estes dois apresentam, esta luta tem grandes chances de terminar por nocaute concorrendo ao bônus de luta da noite.

Tendo o boxe como primeira modalidade, a italiana Mara Romero Borella tem aproveitado muito bem os treinos na ATT, onde vem melhorando bastante seu jogo de quedas e também seu jiu-jítsu. Depois de finalizar a favorita Kalindra Faria na estreia e perder para a experiente Katlyn Chookagian três meses depois, Borella terá pela frente outra brasileira em sua terceira luta no UFC: Taila Santos. Ainda invicta com 15 lutas no currículo (10 por nocaute), a atleta da Astra Fight Team conseguiu seu contrato com o UFC após vencer Estefani Almeida na decisão no segundo episódio do Contender Series Brasil. Muito agressiva, e mostrando um bom nível no muay thai, Taila terá que testar suas defesas de queda nesta luta. Por ser mais completa e já estar sendo testada com oponentes da elite da divisão há mais tempo, a italiana entra como favorita.

Depois de ser derrotado por Andrei Arlovski e finalizado pelo russo Alexey Oleinyk, Junior Albini decidiu se mudar para a Flórida e treinar na equipe dos adversários. Contando com um farto material humano para sparring, algo que lhe faltava na equipe do mestre Ocimar em Paranaguá, Albini aproveitou muito bem o camp para sua terceira luta. Seu oponente será o striker do suriname Jairzinho Rozenstruik, que, apesar de não ter nenhum ligação com o Brasil, recebeu este nome de seu pai como uma homenagem ao ídolo do futebol que ajudou o Brasil a conquistar a copa de 1970. Jairzinho tem 76 lutas de kickboxing, sendo 70 vitórias e 64 nocautes. No MMA está invicto com seis lutas e pouquíssima experiência no solo. Obviamente o fiel da balança aqui será o wrestling. Se o brasileiro conseguir botar em prática as aulas com Steve Mocco e conseguir derrubar, deverá vencer. Mas se o atleta do suriname conseguir frustrar suas quedas, mantendo a luta em pé, tem grandes chances de estrear no UFC com nocaute.

Outro que fez o camp na ATT e terá pela frente um estreante invicto é Markus Maluko. Anthony Hernandez conseguiu o contrato após nocautear Jordan Wright na segunda edição do DWTNCS.  Pela evolução que mostrou em suas últimas lutas (Eryk Anders, James Bochnovic e Andrew Sanchez), Markus tem tudo para conseguir a segunda vitória. O ponto chave neste combate é evitar o double leg na grade, uma vez que Hernandez tem uma guilhotina perigosíssima.

Livia Souza x Sarah Frota

Além das duas lutas principais, o UFC Fortaleza terá mais dois confrontos entre brasileiros.

A duas semanas do evento, o card recebeu o reforço de dois estreantes, campeões de eventos brasileiros, que se enfrentarão na divisão dos penas. O mineiro Geraldo Freitas (campeão peso-galo do Shooto), que treina na Nova União e vem de uma sequência de seis vitórias, enfrentará o atleta de Macapá, Felipe Colares “Cabocão” (campeão peso-pena do Jungle), que representa a Team Nogueira, e está invicto em oito lutas.

No peso-palha, Lívia Souza, campeã do Invicta, que estreou no UFC finalizando a veterana Alex Chambers com uma guilhotina no primeiro round, irá recepcionar a estreante Sarah Frota. A atleta da Astra Fight Team conseguiu a vaga no UFC após atropelar no primeiro round Maiara Santos no Contender Series Brasil. Invicta em nove lutas, Sarah tem um jogo de força e explosão que faz lembrar lutadoras como Cris Cyborg e Jéssica Andrade. Mas a verdade é que a atleta da Astra ainda não foi testada contra uma representante da elite do esporte. Este combate contra a ex-campeã do Invicta, que vem sendo apontada entre as maiores promessas da divisão, nos dará a dimensão exata de onde as duas podem chegar no evento. Por todo seu histórico, Lívia chega como favorita, mas Jéssica Bate-Estaca tem nos ensinado que força física e explosão podem ser grandes diferenciais nesta divisão. Uma coisa é certa, a vencedora não tardará a chegar no topo do ranking dos palhas.

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